Século 19 Histórias de Viamão - Histórias do Rio Grande
Por Vitor Ortiz

O ANIVERSÁRIO DE VIAMÃO
O viamonense como gaúcho
e brasileiro

POR QUE COMEMORAMOS O 14 DE SETEMBRO? A DATA DA PROVISÃO ECLESIÁSTICA QUE AUTORIZA O REGISTRO DE NASCIMENTOS, BATISMOS, CASAMENTOS E ÓBITOS NA CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO É ESTA, ENTENDIDA COMO A DATA DE ANIVERSÁRIO DE VIAMÃO. MAS POR QUÊ?
Viamão já existia como núcleo de povoamento português desde pelo menos 1726, quando por aqui chegaram as famílias da frota de João de Magalhães, que desceram de Laguna para se instalar em definitivo na região.
Eles vieram se estabelecer com estâncias de criação de gado, esperando receber a posse das terras ocupadas na forma de sesmarias.

Obviamente que por estas terras todas, incluindo os territórios atuais de Porto Alegre, do Vale dos Sinos, de Gravataí, Santo Antônio da Patrulha, até Triunfo, chamados Campos de Viamão, antes eram de domínio indígena, predominantemente de índios guaranis.

Segundo o professor Moacyr Flores¹, foi um destes estancieiros vindos de Laguna, Francisco Carvalho da Cunha, instalado na chamada Estância Grande, quem, alguns anos depois, doou as terras onde foi erguida a primeira capela em louvor à Nossa Senhora da Conceição, bem menor e mais modesta, é claro, que aquela construída entre 1766 e 1769 pelo Governador e Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, em sua majestosa forma e tamanho atual.
O que houve em 1741 – e que marcou o nascimento em definitivo do povoado – foi a concessão à Capela de Viamão de uma Provisão Eclesiástica que autorizou a paróquia local a realizar o registro dos recém-nascidos, os casamentos, batismos, entre outros sacramentos católicos que atestavam a existência das pessoas, adimitindo-se, a partir desta data, 14 de setembro daquele ano, existir o “sujeito viamonense”: ou seja, nascido em Viamão.
Desse modo, não é errado dizer que, mais importante do que o título de “Freguesia” para marcar o reconhecimento de Viamão pela Coroa Portuguesa como um povoado, o que também ocorreu com esta decisão, esta Provisão de 14 de setembro trouxe a luz a oportunidade de surgir “o ou a viamonense”.

É importante registrar que o status de “Freguesia” estava abaixo do de “Vila”. Somente as “vilas” podiam ter uma Câmara Municipal, órgão máximo de governo da época. Naquele século XVIII, antes da invasão espanhola de 1763, somente a cidade de Rio Grande tinha esse grau. Foi esta Câmara da Vila de Rio Grande que foi trazida para Viamão pelos portugueses em fuga daquela cidadela, aqui realizando suas reuniões e despachos até 1773, quando foi transferida para Porto Alegre.
Somente bem mais tarde, já no período do Império, no final do século XIX, é que Viamão vai ganhar o status de “Vila”. No período republicano, a Intendência substituiu a Câmara como centro do governo local, e depois da Revolução de 30, já na Era Vargas, é que então se passa à nomenclatura de “município”, governado por um “prefeito”.
Desse modo, conclui-se que, a data que comemoramos, não é simplesmente a referente ao surgimento da Freguesia de Viamão, mas do, ou da, “viamonense” como gaúcho (ou gaúcha) e brasileiro (ou brasileira).

 
NOTAS
¹FLORES, Moacyr. História da Igreja no Rio Grande do Sul.

Série: O século XIX em Viamão (4)
Dom Pedro I e Dom Pedro II estiveram em Viamão
Tanto um, quanto o outro, ambos os imperadores do Brasil, estiveram em Viamão e na mesma data festiva, em anos diferentes: no 8 de dezembro, na data de Nossa Senhora da Conceição. Dom Pedro I, em 1826; e Dom Pedro II, em 1845.

A comprovação de que ambos os imperadores, Dom Pedro I e Dom Pedro II, estiveram em Viamão está no compêndio Novo e Completo Índice Chronológico da História do Brasil - A viagem de SS MM (Suas Majestades) II nas Províncias do Sul (extraído de jornais e cartas particulares) - 1842 a 1889, publicação localizada pela pesquisadora da coluna, Eliani Vieira, nos arquivos digitalizados da Biblioteca Nacional¹.


O documento narra passo-a-passo a viagem que Dom Pedro II decidiu fazer às províncias do Sul depois de encerrada a Revolução Farroupilha.
O anúncio da viagem foi feito por ele na sessão de encerramento das atividades do ano da Assembléia Geral Legislativa, no Rio de Janeiro, em 14 de setembro de 1845.
Menos de um mês depois, no dia 05 de outubro, ele embarcava em São Cristovão, partindo do Rio para uma primeira parada em Santa Catarina a bordo da Fragata Constituição, parte da Esquadra Grenfell, composta de várias embarcações, entre elas o brigue inglês de guerra Grecian.
Depois de já estar alguns dias em Porto Alegre, sempre acompanhado da Imperatriz, Dom Pedro foi convidado pelo Conde de Caxias (futuro Duque de Caxias), então governador da Província, para um espetáculo demonstrativo da batalha que resultou na vitória sobre as forças de Bento Gonçalves no Passo do Vigário, em Viamão.

A encenação se deu no dia 07 de dezembro. A publicação relata que a força montada para a representação compunha-se de duas brigadas, a 1a. comandada pelo Brigadeiro José Fernandes dos Santos Pereira, e a 2a. pelo Cel. Luiz Manoel de Lima e Silva, sob Comando em Chefe de Sua Majestade: “o combate durou mais de três horas e queimaram-se 60 mil cartuxos”, tendo o Imperador mostrado-se muito impressionado com as manobras.
Na manhã do dia 8, data da padroeira, o Imperador e muitas outras pessoas saíram para uma caçada, acompanhados do então ilustre viamonense Tenente Américo Antunes Pinto.
Por volta das 17h regressaram, chegando à cidade às 21 horas debaixo de muita chuva, conforme o registro.
A publicação salienta o seguinte:
“É digno lembrar que no mesmo dia 7 de dezembro chegara à Capela de Viamão o Senhor Dom Pedro I, quando veio a esta Província. O fundador do Império e seu augusto filho ali estiveram em idêntico dia, e ambos no dia 8, aniversário da Conceição N. Sra.”

Dom Pedro I esteve no Rio Grande do Sul em 1826, quando veio para incentivar as tropas que lutavam na Guerra da Cisplatina. Sobre sua estada em Viamão vamos contar mais nas próximas colunas.
 
NOTAS
¹Novo e Completo Índice Chronológico da História do Brasil – A viagem de SS MM II nas Províncias do Sul (1842-1889). Biblioteca Nacional Digital. Consulta em 23/04/2015 em memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=707619&PagFls=222&Pesq= (Pesquisa de Eliani Vieira)

Série: O século XIX em Viamão (1)
Como estava Viamão no final do século XVIII
Segundo o viajante francês Auguste Saint-Hilaire¹, em 1820, o Arraial de Viamão era mais conhecido em São Paulo do que Porto Alegre. Ainda estava viva a denominação “Campos de Viamão”, originada nos tempos das Vacarias. O século XIX chegara com a Capela Grande consolidada como povoação.

Ao longo do século XVIII, os Campos de Viamão, denominação de toda a vasta extensão de terras existentes na parte norte da lagoa dos Patos, entre a serra geral e o mar, foi definitivamente ocupado pelos portugueses, que se instalaram com estâncias de gado, estruturando os arraiais de Viamão, Santo Antônio da Guarda Velha, Gravataí e Porto Alegre, extendendo-se até Triunfo².

Essa ocupação se deu à base da concessão de sesmarias pela Coroa, especialmente aos lagunenses que desceram para esse território mais ao sul do Brasil na primeira quarta parte daquele século. O marco histórico mais lembrado como início dessa migração é a chamada Frota de João de Magalhães, que teria vindo com cerca de trinta homens para se instalar definitivamente.

Ainda no século XVIII chegaram a Viamão, a partir de 1752, os colonos açorianos, oriundos do arquipélago dos Açores, no Atlântico, localizado a cerca de 1500 km de Portugal. Estes se espalharam por toda a região, mas foram assentados principalmente às margens do Guaíba, lugar posteriormente chamado Porto dos Casais e, finalmente, Porto Alegre. Vieram também em grande número para as terras repartidas em “datas” (certa porção de campo) entre o Morro Grande e Itapuã³.

Também naquele período, chegaram com os portugueses os negros escravos, que se acreditava, inicialmente, não existiam no sul em grande proporção, o que os números que vem sendo apurados com as pesquisas históricas mais recentes desmentem. O quadro de habitantes composto pelos “róis de confessados” (uma espécie de contagem dos fiéis realizadas pelos padres na época da quaresma) de 1780 e 1798 mostra já um crescimento de Porto Alegre e revela que em Viamão, onde viviam 1891 pessoas, 749 eram escravos (4). Ou seja, cerca de 40% da população.

Ainda nessa época, vieram se estabelecer em Viamão antigos moradores de Colônia do Sacramento e Rio Grande (5), que acossados pelos espanhóis na guerra de 1763, realizaram uma migração regional transferindo-se para a Capela Grande, onde os mais ricos compraram terras e instalaram novas atividades comerciais. Foi exatamente neste período que também foi transferida para Viamão a sede das reuniões e atividades da Câmara - o órgão que governava a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, dizendo-se, deste modo, que Viamão era então a capital do estado, embora esta condição nunca tenha sido oficializada.

Foram nesses 75 anos entre 1725-1726 (da Frota de João de Magalhães) e 1800, que nasceram as primeiras estâncias, até hoje referidas na toponímia do município: principalmente a Fazenda Boa Vista, a Rincão de São Brás e a Estância do Capivari, entre outras.

Quando o século XIX começou, em 1º de janeiro de 1801, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição já estava construída e em seu entorno havia um casario colonial pouco habitado. A transferência da sede da Câmara para Porto Alegre, promovida em 1787 pelo Governador Marcelino Figueiredo, enfraqueceu a povoação e o século XIX iniciava com a marca da ruralização. Viamão era então um arraial, parte da Freguesia de Porto Alegre.

 
NOTAS
¹SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). São Paulo: Companhia Editora Nacional (tradução do original de Leonam de Azevedo Pena), 2ª. Edição, 1939. Consulta realizada em 05.02.2015. Disponível em www.brasiliana.com.br.
²Para mais informações sobre a ocupação ancestral do território, ver neste site http://viamaohistoria.com.br/arqueologia.htm o texto Viamão sob o viés arqueológico, de Vinicius Marques.
³FORTES, Gen. João Borges. Os casais açorianos – presença lusa na formação sul-riograndense. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1999.
(4)SIRTORI, Bruna e GIL, Tiago Luís. A geografia do compadrio cativo: Viamão, Continente do Rio Grande de São Pedro, 1771-1795. link em http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos5/sirtori%20bruna%20e%20gil%20tiago%20luis.pdf
(5)KÜHN, Fábio. Gente da fronteira: família, sociedade e poder no sul da América portuguesa - século XVIII. Tese de mestrado na UFF. Niterói, 2004.
Pesquisa: Eliani Vieira e Vitor Ortiz
Ilustrações: Xico
vitor.ortiz.cultura@gmail.com


Série: O século XIX em Viamão (2)
O padre que herdou sozinho três grandes fazendas
A foto acima é provavelmente das primeiras décadas já do século XX. Mas em 1800 o edifício da Capela Grande de Viamão já tinha suas dimensões atuais, transformado numa referência da região Sul do Brasil. Saint-Hilaire disse em seus registros da viagem de 1820 que não tinha visto igreja melhor desde São Paulo.
A lendária Fazenda da Boa Vista, unida à Fazenda do Capivari, e ainda a antiga Estância do Palmar, por uma incrível ocorrência, foram parar nas mãos do primeiro gaúcho a ser ordenado padre, o Pároco João Diniz Álvares de Lima. Este, por sua vez, irá depois vender a fazenda visitada por Saint-Hilaire em 1820 a um nobre e influente membro da corte, o Marquês de Santo Amaro, José Egídio Álvares de Lima.

Quando o século XIX começou, em Viamão, o pároco local era o Padre João Diniz Álvares de Lima. Ele é o primeiro gaúcho a ser ordenado padre, o que ocorrera em 13 de junho de 1778, no Rio de Janeiro, onde foi estudar teologia. Inicialmente, o Padre Diniz foi designado para a Guarda Velha (Santo Antônio da Patrulha). Mas em 1782, finalmente, cumpria-se o seu maior desejo: a nomeação para a Capela Grande de Viamão, onde estava estabelecida a sua família.

Ele foi batizado em 1745 (Livro B1, 52v), na então Vila de Rio Grande, sede da Câmara, principal órgão do governo regional. Filho de João Diniz Álvares e de Catarina de Lima, teve como padrinhos de batismo o então governador da Província Diogo Osório Cardoso e Dona Brígida Antônia, esposa do Alferes Manuel Antônio Rodrigues. A criança nascia, como indica esse apadrinhamento, em berço esplêndido. Segundo o historiador Borges Fortes¹, o pai havia sido tropeiro com Cristóvão Pereira de Abreu e se fixou no Rincão dos Palmares em 1735, ou seja, nos primórdios da ocupação portuguesa dos Campos de Viamão. Mais tarde, João Diniz Álvares (o pai do padre), requereu sesmaria e incorporou a sua propriedade a Estância do Capivari.

O Padre João Diniz Álvares de Lima foi provavelmente um filho único e quando o pai morreu, em data incerta, herdou a Fazenda do Capivari e deve ter dividido com a mãe a propriedade do Rincão dos Palmares.


Registro do batismo do Padre João Diniz em Rio Grande, no ano de 1735.
A mãe, Dona Catarina de Lima, no entanto, casou-se outra vez com o Capitão José Antônio de Vasconcelos, então dono da antiga e lendária Fazenda da Boa Vista. É provável também que não tenham tido filhos, já que, depois de falecido o Capitão Vasconcelos, a Boa Vista, unida ao Rincão do Capivari, foi também passada para o pároco. Ou seja, o padre foi o herdeiro único de três grandes propriedades e, para completar, na condição de celibatário, não tinha herdeiros. Na verdade, não se sabe exatamente se o Padre chegou a ser dono da Fazenda do Palmar, mas com certeza ele era, no início do século XIX, o maior proprietário de terras da região.

Segundo Vítor Cabral², numa relação de estancieiros organizada por José Marcelino Figueiredo, governador da Província que levou a Câmara de Viamão para Porto Alegre em meio a vontades contrariadas em 1773, está registrado que “o reverendo João Diniz Alves (Álvares) de Lima apresentou três cartas de sesmarias e um escrito de venda pelo Capitão Antônio Teixeira com terrenos nela declarados (provavelmente no arraial) e tem, em sua criação, 10 mil rezes, 500 mulas, 80 bois, 100 cavalos, 400 ovelhas e 50 burros”. Ou seja, o padre detinha uma das maiores fortunas da época na região. Em outros registros, ele aparece também entre os maiores proprietários de escravos do Continente.

Quando foi designado para a Paróquia de Viamão, em 1782, a obra de construção da grande Capela de Nossa Senhora da Conceição, na sua dimensão atual, já estava concluída, mas é provável que não estivesse nem decorada, nem equipada. Diniz dá inicio então a um processo de transferência de parte do seu patrimônio para a Igreja, com grandes doações, visando principalmente a sua ornamentação, incluindo ai, possivelmente, a aquisição dos altares barrocos, até hoje existentes.
 
NOTAS
¹FORTES, Gen. João Borges. Rio Grande de São Pedro - povoamento e conquista. Porto Alegre: Martins Livreiro (2a. edição).
²CABRAL, Victor Américo. Continente de Viamara - Mbia-mú, Viamon ou Viamão. Porto Alegre: Emma, 1976. É provável que Victor Cabral tenha encontrado essa informação na obra de Borges Fortes, citada acima, mas ele não traz as referências.
³A primeira sessão da Câmara em Porto Alegre foi no dia 06 de setembro de 1773: FRANCO, Sérgio da Costa. História de Porto Alegre ano-a-ano - uma cronologia histórica 1732/1950. Porto Alegre: Letra&Vida, 2012.
Pesquisa: Eliani Vieira e Vitor Ortiz
Ilustrações: Xico
vitor.ortiz.cultura@gmail.com


Série: O século XIX em Viamão (3)
O testamento do padre mais rico da Província de São Pedro
João Diniz alega estar doente, acamado, sem conseguir escrever, mas em seu perfeito juízo. Pede então ao padre João Chrisóstomo da Silva que grave e confirme o seu testamento. Nessa data, em 1824, ele já havia se desfeito das estâncias que herdou: a lendária Fazenda da Boa Vista e a de São Caetano. A primeira vendida ao Marquês de Santo Amaro, a segunda a Chrisóstomo. Além de libertar os escravos, o codicilo beneficiou as mulheres solteiras, uma afilhada, as filhas dos capitães Manoel dos Reis e Antônio José Pinto, além da Capela de Nossa Senhora da Conceição.
O Vigário João Diniz morreu no dia 17 de maio de 1825, “de um fluxo catarral intenso”, conforme atesta seu registro de óbito. O velho pároco, o primeiro gaúcho a ser ordenado padre, tinha então 80 anos. Desde 1782 estava em Viamão, quando fora designado para a Capela Grande de Nossa Senhora da Conceição.

Uma das últimas referências que se tem registro sobre ele está nos relatos da passagem do Cônego Antônio Vieira da Soledade por Viamão, em 6 de maio de 1824, que numa visita de inspeção, por ordem do Bispo do Rio de Janeiro, diz ter encontrado como pároco colado o Padre Bartholomeu (Lopes de Azevedo) e ter visto o Padre Diniz, com 80 anos, a quem é atribuída a riqueza da Igreja Nossa Senhora da Conceição¹.

Divida do Barão de Santo Amaro

O testamento
O que o padre mais rico do Rio Grande do Sul, dono de fazendas, escravos e milhares de cabeças de gado testamentaria deve ter sido motivo de muita especulação à época. Único herdeiro das fazendas da Boa Vista e do Palmar, o padre não tinha nem filhos, nem irmãos. Uma parte considerável da riqueza que possuía foi em vida transferida para a Capela de Viamão, a maior parte empregada na decoração e em alfaias para a igreja, conforme vários registros.
Dois anos e meio antes de falecer, na data 05 de novembro de 1822, ele decidiu registrar sua vontade, tomando como testemunha o então conhecidíssimo Tenente-Coronel Ignácio dos Santos Abreu e como testamenteiro Antônio Vieira de Araújo². O padre determina então que do restante em dívida da venda da Fazenda da Boa Vista ao Marquês de Santo Amaro, de aproximadamente oito contos de réis (o que equivalia a cerca de 33% do valor da propriedade com todo o gado e todas as benfeitorias), grande parte deve ser revertida aos pobres, citando várias pessoas que deveriam receber “esmolas”.

Moças orfãs beneficiadas
Ele também decide destinar 300 mil réis a cada moça orfã, solteira e pobre da Freguesia de Viamão, como dote de casamento, valor que só poderia ser entregue pelo testamenteiro mediante a comprovação do enlace. Depois de uma lista de outras determinações, ele diz que o restante deve ser dado ao Hospital de Caridade de Porto Alegre.
Um ano e meio depois, em 19 de maio de 1824, ele confirma o testamento, salientando que vendeu o sítio de São Caetano para o Padre Chrisóstomo e mais uma vez especifica o que deve ser feito com os pagamentos que ainda tem que receber. Estes deveriam ser investidos em alfaias para a igreja, relacionando o que deveria ser comprado:

• 50 castiçais de pau dourado para a procissão do Santíssimo Sacramento no trono;
• um frontal para o altar-mor de damasco branco, de fio de ouro e seu galão com franja dourada (tudo da melhor forma que houver);
• seis lanternas de prata com seus cabos dourados e seus vidros competentes que são para acompanhar a cruz nas procissões;
• um guião de damasco branco com franja de galão de ouro para a imagem de Nossa Senhora da Conceição;
• roupas de cambraia para a Irmandandade do Santíssimo (na falta de cambraias poderia ser seda);
• sinetes para o andor com seu galão de prata;
• ramalhetes ricos para o andor e se puderem ser palmas de prata, melhor.
Entre outros itens.


A relação de escravos no testamento
As casas do Padre em Viamão
O padre declarou ainda a intenção de deixar 200 mil réis para Joana, afilhada de Dona Joaquina do Carmo que a criou e com quem morava ainda na época, mas condiciona a herança ao seu casamento: “suposto estar já casada com Manoel”, está lá escrito. Instituiu ainda como suas principais herdeiras as jovens Ana, filha do Capitão Antônio José Pinto e Gertrudes Eugênia Gomes de Lima (esta última filha do estancieiro Domingos Gomes Ribeiro e Maria Rodrigues de Lima e sobrinha do padre) e outra Ana, esta filha do Capitão Manuel da Silva Reis, sua afilhada.

A elas o padre deixou duas casas no povoado com todos os pertences, com exceção de uma bacia com jarro de prata que era para apresentar à mesa da Irmandade do Santíssimo Sacramento. É provável que estas casas - referidas em vários registros de visitantes como muito luxuosas para a época - fossem as que existiam do lado oeste da Igreja, junto à atual avenida Cel Marcos de Andrade. Segundo os registros, o padre tinha uma casa grande e outra menor, ambas de pedras, cobertas de telhas, assoalhadas e forradas, com muitos móveis, louças da índia, vidraria, objetos de prata e estanho, roupas de cama e mesa de tecidos finos, colchas de seda com franjas, tudo com bastante luxo.
O testamento registra que coube 715$500 (setecentos e quinze mil réis) a cada uma das Anas, quase um conto, cujo valor se pode estimar comparando-o com a dívida do Marquês de Santo Amaro com o padre, de 8 contos de réis, equivalente a cerca de 33% da Fazenda da Boa Vista.
O registro de óbito do Padre
Liberdade aos Escravos
Quando fez este seu testamento, mesmo já tendo vendido suas fazendas, o padre tinha ainda 11 escravos, determinando que todos deveriam receber carta de alforria, exceto dois, um chamado Joaquim que, pelo que se pode depreender, ficava com a liberdade condicionada a juntar seis doblas (antiga moeda portuguesa) e outro chamado José, que ficaria entregue a seu padrinho, Antônio Fernandes de Carvalho para lhe servir (“por atenção a sua pobreza”) por sete anos.

 
NOTAS
¹RUBERT, Arlindo. A história da Igreja no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Coleção Tecnologia, EDIPUCRS, (76–77).
²Testamento e inventário do Pe. João Dinis Alves (Álvares) de Lima, processo nº: 868, maço:35 - 1º Cartório de Órfãos - Porto Alegre- 1825. APERS.
Pesquisa: Eliani Vieira e Vitor Ortiz
Ilustrações: Xico
vitor.ortiz.cultura@gmail.com

Vitor Ortiz - O autor
Exerceu o cargo da Ministro da Cultura em substituição à ex-Ministra Ana de Hollanda; foi secretário-executivo do Ministério e diretor da FUNARTE.
Foi secretário de cultura de Viamão, São Leopoldo e Porto Alegre.
Acadêmico de história da Ufrgs, é autor do livro Histórias de Viamão - Histórias do Rio Grande, finalista do prêmio Ages de melhor livro do
ano na categoria não-ficção, em Porto Alegre.
Atualmente, dirige o Festival Virada Sustentável e realiza diversos culturais país afora.