Século 16 No meio da terra de ninguém
Por Valter Fraga Nunes
Briga de gente grande
Desde o início do século XVI, portugueses e espanhóis disputam os domínios territoriais do a recém descoberto continente americano, desconsiderando totalmente as civilizações nativas que já ocupava há mais de 10.000 anos estas terras.

Para acalmar um pouco os ânimos, em 1494, assinam o Tratado de Tordesilhas, que divide o mundo conhecido em duas metades, delimitando as possessões das duas potências ocidentais com relação as terras “descobertas e por descobrir”, através de uma linha imaginária (meridiano) que dista da ilha de Cabo Verde 370 léguas para o oeste em direção as ilhas do Caribe, ficando assim estabelecido que, a leste deste ficaria para Portugal e a oeste para a Espanha.
Com as dificuldades encontradas na época para definir estes limites com precisão, especialmente na América do Sul, pois cada cartógrafo da época interpretava de maneira diferente, trataram os dois países de investir em expedições de reconhecimento e colonização do “Novo Mundo”, afim de garantir supremacia territorial, cada um para sua coroa. Portugal, aproveitando desta incerta fronteira, avança bastante nas supostas terras espanholas.

Outros países europeus, principalmente a Inglaterra, França e a ascendente República Holandesa, nunca reconheceram este Tratado e tinha enorme interesse em expandir seus domínios, dando muitos transtornos tanto para Portugal quanto para a Espanha.
O Meridiano de Tordesilhas segundo diversos Geógrafos. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tordo.jpg

Os pioneiros na
América Austral
Com a ajuda dos índios carijós, nove náufragos da expedição de Solis, sobreviveram no Porto dos Patos, (sul da Ilha de Santa Catarina ou Meiempibe para os nativos). Deixaram de serem resgatados por volta de 1519, pelo Português Cristóvão Jaques que fazia a guarda da costa brasileira contra invasores, principalmente espanhóis e franceses. Justamente por serem de missão espanhola, ficaram mais seis anos no convívio dos carijós. Entre eles, estava o português Aleixo Garcia, personagem desconhecido até alguns anos atrás.


Intrigado e curioso por algumas peças de prata que vários índios ostentavam e pelas histórias contadas pelos mais velhos da tribo, sobre a existência de um povo nas terras altas para o oeste, cujo rei de cor clara se vestia de prata dos pés à cabeça e inclusive era dono de uma montanha inteira de prata (Cerro de Potosí), estimulou a ambição de Aleixo Garcia e em 1522 realizou a primeira e uma das mais notáveis expedições para o interior do continente sul-americano em busca destes tesouros, sendo o primeiro europeu a entrar em contato com o império Inca, oito anos antes do espanhol Francisco Pizzaro.
Aleixo Garcia percorreu mais de 2.600 km pelos caminhos indígenas do Peabiru até alcançar, onde atualmente é a localidade de Mizque, no Departamento de Cochabamba na Bolívia, distante aproximadamente 150 km ao norte do riquíssimo cerro de Potosí. Com o seu poder de persuasão junto aos carijós e com a ajuda de quatro companheiros de naufrágio, conseguiu reunir ao longo do caminho, um exército de mais de 2.000 guaranis. Ao defrontar com o exército Inca, deve que recuar margeando o Rio Pilcomayo até perto de Assunção, quando, provavelmente, foi atacado e morto pelos Paiguás. Antes do ataque enviou um grupo de emissários carijós de volta ao Porto dos Patos para pedir reforços. Com eles uma amostra do tesouro, estimada em 44 quilos de ouro, prata e outros metais pilhado nas terras andinas, confirmando a existência do “El Dorado”. Os quatro náufragos que não o acompanharam na jornada, ficaram maravilhados com a beleza das joias incas.
Logo esta descoberta se espalhou e novas expedições foram enviadas a América Meridional em buscas destes cobiçados tesouros. Sua excursão pode ser considerada como a primeira atividade bandeirista e serviu como importante rota para a colonização da América do Sul.

Margeando a costa oriental do Rio da Prata, Caboto passou pela ponta onde seria a futura Colônia de Sacramento e denominou a Ilha em frente de São Gabriel. Continuando a exploração chegou na foz do Rio San Juan e ali fundou um porto chamado de San Lázaro. Neste local, encontrou Francisco del Puerto, único sobrevivente do massacre de Solis, pois na época tinha apenas 15 anos e os charruas o pouparam do banquete.

Devido as tormentas constantes, enviou o capitão Antón de Grajeda localizar um porto mais seguro. Entrando uns 20 km no Rio Uruguai logo se deparou com o Rio San Salvador que fornecia condições mais favoráveis para estabelecer um porto. Neste local, Sebastiano Caboto constrói o Forte São Salvador, se constituindo no primeiro assentamento europeu no atual Uruguai.

Mas, segundo Francisco del Puerto, o melhor caminho para chegar a serra de Prata é subindo o Rio Paraná. Subiram por mais de 300 km e na confluência com o Rio Carcaraná, constrói o Forte Sancti Spiritus, localizado entre as atuais cidades de Rosário e Santa Fé, sendo o primeiro povoado em solo Argentino. Após sete meses neste local, Caboto resolve continuar subindo o Rio Paraná até chegar ao Rio Paraguai e por ele subiu por mais 200 km, mas devido as fortes correntezas, fome e a hostilidades dos índios retornou sem chegar a foz do Rio Pilcomayo, que o levaria até ao Cerro de Potosí. Na volta entra no Rio Paraná e resolve explorá-lo para o Leste por mais 200 km, até a altura da atual cidade de Posadas e lá funda o Fortim Santa Ana
Num determinado dia, recebe a visita de um chefe indígena amistoso, Yaguarón, informando que o caminho para a serra de Prata é pelo Rio Paraguai. Caboto deixa alguns homens neste Fortim e segue sua busca pelo Rio Paraguai. Alguns dias depois o Fortim é atacado pelos índios, matando todos que ali se encontravam.

Diogo Garcia que partira da Espanha quatro meses após Sebastiano Caboto, chega a Ilha de Santa Catarina por meados de fevereiro de 1527. Em conversa com os índios carijós, descobre que Caboto desobedeceu as ordens do Rei Carlos V, em penetrar no Rio da Prata, pois sua missão era tão somente chegar as Ilhas Molucas, fato que não ocorreu.
Adentrando o Rio da Prata, logo chega nos fortes construídos por Caboto, mas não o encontra. Subindo o Rio Paraná, próximo da confluência com o Rio Paraguai, ficam frente a frente. Um encontro nada agradável para ambos. Após muita discussão de quem deveria explorar e tentar achar os tesouros dos povos andinos, os dois resolvem procurar juntos, contudo, sem sucesso. Mas isso não ficou bem assim, no regresso a Espanha, Diogo Garcia instaurou um processo contra Sebastiano Caboto, sendo condenado em 1532 ao exílio, além de pagar multas. No entanto, como o imperador Carlos V que se encontrava na Alemanha, não tomou conhecimento e ao retornar a Sevilha, reconduz Caboto ao cargo de Piloto-maior da Espanha.
O Rei português D. João III, sabendo desta intensa movimentação por parte dos espanhóis no Rio da Prata, especialmente pelo interesse de se apoderar da Serra de Prata e demais tesouros do “rei branco”, descoberto por Aleixo Garcia, envia em 1530 uma frota exploratória e colonizadora, comandada por Martim Afonso de Souza para tomar pose desta região. D. João III interpretava que, segundo o ponto de vista dele sobre o Tratado de Tordesilhas, este território estava dentro dos domínios português. Além disso, esta expedição tinha mais três missões: explorar o Rio Amazonas, expulsar invasores da costa brasileira, principalmente os franceses e estabelecer os primeiros povoados na nova colônia. Ao chegar no Brasil a expedição foi dividida para melhor cumprir seus objetivos. Martim Afonso de Souza parte para o sul com três naves, juntamente com seu irmão Pero Lopes de Souza.
Valter Fraga Nunes - o autor
Nascido em Viamão, dia 4 de março de 1962, é filho de Luiz Cabral Nunes e Vanda Fraga Nunes. Estudou no Grupo Escolar Setembrina, no Colégio Castelo Branco (no tempo que era junto ao Stella Maris) e na Escola Técnica Agrícola (um dos melhores momentos de sua vida, que guarda com muito carinho).
Licenciado em Ciências Biológica pela Unisinos e com mestrado em Botânica na Ufrgs, é funcionário público federal desde 1981 e pesquisador do Núcleo de Pesquisa Histórica de Viamão Mario Curtis Giordani, com ênfase sobre Tropeirismo.
Membro suplente do Conselho de Cultura de Viamão, no segmento sobre Patrimônio Cultural, é um dos coordenadores da Tropeada Cristóvão Pereira de Abreu.
Pessoa de vida simples, normalmente bem-humorado, mas quando perde as estribeiras, é melhor icar longe. Gosta de conviver com a natureza, mas não dispensa tecnologia, principalmente de comunicação.
Acha que as duas coisas bem balanceadas coexistem bem (tecnologia e natureza). Aprecia toda lida do sítio, principalmente manter a horta e icar perto dos familiares e animais que mais lhe correspondem com carinho que são os cachorros, a mula “Meia Noite” e os burros “Guri” e “Raschi”, parceiros de muitas tropeadas pelo Rio Grande afora.
Não tem muitas ambições na vida, que já passou de meio século. Quer apenas viver tranquilo e continuar pesquisando, estudando e aprendendo sobre as origens e as tradições do povo gaúcho e do movimento tropeiro que transformou o continente sul-americano, integrando o Brasil de Norte a Sul.