Histórias
Vinhos de Viamão -
Adega Medieval - Oscar Guglielmone

Um grande anfitrião, o último templário, um homem de temperamento forte e brigão, um filósofo de plantão, um cidadão excêntrico, o elaborador do melhor vinho brasileiro, um desviante personagem da vinicultura gaúcha, uma ‘figura’. Assim é descrito o vitivinicultor Oscar Guglielmone, o proprietário da antiga Adega Medieval, localizada em Viamão. Mesmo a vinícola não existindo mais já alguns anos, muitos lembrarão dos longevos Nebbiolo e Cabernet Franc elaborados por ele. Em 2008, numa degustação realizada em São Paulo, enólogos e enófilos do calibre de Didú Russo, Adolar Hermann, Sergio de Paula Santos, entre outros, comprovaram, como escreveu o jornalista Luiz Horta, “que quem bebeu dos vinhos de Guglielmone, nunca esqueceu sua qualidade. Mesmo 27 anos depois de engarrafados, os vinhos faziam jus à fama e aura que a extinta vinícola ganhou”. Na ocasião, 11 garrafas passaram pelo crivo dos especialistas e foram aplaudidas. Mas, quem era esse ‘profeta dos vinhos’?
Filho de Arthur e Conceição Crespo Guglielmone, Oscar nasceu em 7 de junho de 1926, em Uruguaiana. Aprendeu o ofício de vinicultor por hereditariedade. Seu pai e seu avô vinham de sucessivas gerações de vitivinicultores com passagem pela Itália e pelo Uruguai. A família produzia uvas em Uruguaiana desde 1885. E embora não tenha convivido com eles, contou em entrevistas, que “só posso creditar o interesse à indução genética”. Em Uruguaiana eles produziam os vinhos mais finos do Brasil. Castas de alta linhagem eram cultivadas nas terras da família, como a Pinot Noir e prêmios no Brasil e na Itália foram conquistados. As medalhas que ganharam na época foram reproduzidas nos rótulos da Adega Medieval anos mais tarde.

Estudou Economia, mas não chegou a exercer a profissão. Apaixonado pela ‘bebida dos deuses’, fez cursos de enologia na Argentina e estudou a técnica em livros italianos, franceses e espanhóis. Resolveu plantar algumas mudas de parreirais em Viamão e se dedicar mais ao ofício. “Quando ele se casou com a minha mãe (segundo casamento de Guglielmone), resolveu começar uma nova vida e buscar o sonho dele de fazer vinhos. Tinha uma empresa de distribuição de produtos hospitalares e largou tudo para morar num sítio em Viamão. Começou do zero mesmo, amassando uvas com os pés e estudando muito”, conta a filha e professora de gastronomia, Gabriela Guglielmone.

A primeira vez que tentou fazer vinhos, em 1968, não acertou muito. Das uvas amassadas com as mãos em uma bacia de alumínio, ele só conseguiu extrair uma bebida preta, intragável. Mas com o tempo e a persistência passou a produzir, de forma artesanal, garrafas de vinhos que eram procuradas por pessoas de todo o país e construiu sua adega em pedras. Foi o pioneiro na elaboração de varietais e o destaque era o Nebbiolo, feita a partir de uvas cultivadas em Viamão. Era o xodó da Adega Medieval. Foi premiado em 1983 pelo Guia Quatro Rodas como o melhor vinho tinto brasileiro (seu Gammay e Moscato Branco já tinham sido destaque no Guia anos antes). As poucas garrafas encontradas nos mercados vinham acompanhadas de um recado, que aconselhava mais um ano de repouso antes de serem consumidas. O vinho era tão requintado que Guglielmone não o vendia para qualquer pessoa. Certa vez, achou que o cliente não merecia degustar a sua bebida.
Os demais vinhos Merlot, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Gammay, Chardonnay e Riesling eram feitos com uvas vindas da Serra Gaúcha. Aliás, com seu Riesling 100% puro queria causar impacto no consumidor e mostrar o que era um verdadeiro varietal, pois ficava indignado com a quantidade de falsos varietais que chegavam ao mercado. “Só existem 430 hectares de Riesling plantados no Brasil, o que dá para produzir apenas quatro mil litros de vinho por ano. O equivalente a 15% do que se vende sob tal rótulo”, falava.
Filósofo do vinho

A língua afiada e a paixão pelo vinho o fizeram colecionar muitos amigos, proferir frases antológicas e enfrentar uma disputa judicial, “que custou a Oscar Guglielmone todas as suas economias, um ataque cardíaco e vários dias na UTI”. Apesar de usar o nome Adega Medieval, o vinicultor não o registrou junto ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) e uma vinícola de Bento Gonçalves requereu o registro. Depois de anos de disputa, ele conseguiu recomprar a marca. Mas, apesar dos transtornos judiciais ele já tinha conquistado o gosto dos apreciadores e especialistas. Recebia elogios de enólogos, enófilos e compradores. Não era presunçoso a ponto de afirmar que seu vinho era o melhor, mas “o que posso dizer é que sei exatamente o que tenho dentro da garrafa: vinhos da melhor qualidade”.

A filha Gabriela o descreve como um ‘grande homem’, que aprendeu os ofícios da profissão sozinho, e que era tão honesto a ponto de comunicar ao Ministério da Agricultura para descartar um vinho que julgava não estar suficientemente bom para venda. “Um homem muito família, que fazia questão de passar os valores e princípios para nós. Tinha um lado filosófico, gostava de escrever sobre a humanidade sempre comparando com o vinho. O objetivo dele não era ganhar dinheiro, mas sim fazer um vinho com alma, qualidade e honestidade”, resume Gabriela.

Era também um visionário. Muito antes da região da Campanha se desenvolver, costumava dizer, em entrevistas, que a ecologia de Uruguaiana é a melhor que existe para os parreirais: “Já nem falo do solo, que é apenas suficientemente bom. Mas a ecologia aérea é excepcional. Um dia ainda produzirão lá os melhores vinhos do país”.

Em outras ocasiões costumava fazer ‘reflexões vínicas’ sobre o mundo da uva e do vinho. “Notamos que as pessoas escolhem suas bebidas por indução genética. A pessoa que toma cerveja é do tipo bonachão. O cervejeiro contumaz é amigo de seus amigos, mas também irresponsável em seus compromissos. Por outro lado, quem toma destilados são pessoas objetivas, contundentes, que agridem ou regridem de acordo com seus interesses. Finalmente, quem toma vinho são as pessoas naturais, de bom senso, equilibrada, geralmente de bastante profundidade, que deixam para seus descendentes o que há de melhor: princípios. Estas seriam as três etiologias da escolha das bebidas”, filosofou durante entrevista a Ney Gastal em 1990.

A produção de vinhos foi interrompida logo após sua morte, em 26 de setembro de 1993. Guglielmone foi assassinado nas instalações da adega com um tiro. A esposa e as filhas Isabel e Gabriela (ele também teve um filho do primeiro casamento) fizeram uma tentativa de continuar com os negócios, mas não foram adiante devido a desacordos judiciais. Poucas garrafas sobraram, mas as barricas, o cheiro da uva e a história construída por Guglielmone se eternizaram.

Fontes: Publicação no Site www.avindima.com.br. Filhas Gabriela e Isabel Guglielmone/ Entrevista a Ney Gastal em agosto de 1990/ Reportagem do Correio do Povo de maio de 2009 ‘O elo perdido dos vinhos brasileiros’, de Marcela Duarte/ Reportagem ‘Os segredos do melhor vinho brasileiro’, de Luiz Horta.

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