Ronda - João Batista Marçal

Boa-noite, meu amor!
Das veias abertas da noite-criança, está gotejando ternura, paz, amor e resignação. Te penso e penso com a alma tremendo sob o sinete de cada segundo que passa. Aquela estrela perdida que ainda há pouco cortava o espaço infinito, foi uma intenção de carinho que eu te mandei. Os riscos dos vaga-lumes, são esperanças que traçamos.

Cada estrela que se acende no descampado da distância, é uma chama que passa a arder no coração dos que amam, na alma dos poetas e no coração das crianças. O silêncio é um lençol que desenha pilocromias musicais na sinfonia das horas que correm, inxoráveis e que vão esplender, quais relâmpagos, no espírito dos desamados.

Amar, tudo amar é a palavra de ordem. Amar as pessoas, amar os animais, amar o mundo, amar a vida, amar o próprio amor, desde que este, como polvo, estenda os seus tentáculos até as raízes de nós mesmos sobre a terra.

E que a dimensão de nosso amor seja tão alta, tão grande e tão maravilhosa que sedimente, de uma vez por todas, os pilares de um mundo mais justo, mais humano e mais fraterno.
Edição 01 - Publicada na Revista Viamão em junho de 2004.

Boa-noite, meu amor!
Não se pode dizer que vivemos num tempo de paz. A paz é um sonho distante como uma estrela que se perde na amplidão, apenas vislumbrada no lusco-fusco deste tempo de desencontros, desigualdades e malquerenças.

Inquietação e angústia dominam, atingem a todos, indistintamente. Embora o homem tenha andado recentemente a passear na Lua, a mais singular de todas as conquistas deste século tecnológico e frio o homem ainda peca pela falta da mais simples e da mais humana das conquistas: não conseguiu a si mesmo. Dimensionou o espaço cósmico, mas não dimensionou ainda o pequeno território do coração. Conhece tudo, mas não conhece a si próprio.

Com o coração calejado pelas barbáries que lastrearam a sua caminhada, com a soma dos erros que sedimentaram a sua experiência sobre a terra, por aí anda o homem deste século vinte e um, sombra e farrapo de si mesmo, fantasmas assustado ante o somatório das incertezas que, como bolas de neve, crescem nos seus horizontes.

Pensemos nestas coisas, neste começo de madrugada, neste alvorecer de um novo dia, reafirmando a nossa fé e a nossa esperança nos destinos de todas as pessoas. Apesar de tudo, nós cremos no homem. Cremos na raça humana porque, mesmo com a alma mutilada, em frangalhos, o homem ainda é capaz de amar.
Edição 02 - Publicada na Revista Viamão em julho de 2004.

Boa-noite, meu amor!
Uma taça de cristal derrama saudade nos meus sentidos. O frenesi das horas correndo como as águas tépidas de uma fonte, dilata emoção para os caminhos insondáveis e para os mistérios do amor. Há um silêncio tumular cadenciando a dança do tempo, que corre e escorre numa imprevisibilidade louca e impossível.

O coração metralha, atropelando o espírito. Vozes, gestos, palavras, intenções, tudo vem em disparada, das raízes primeiras do meu ser, alargando minhas comportas, rasgando minha ternura. Tomo pé dentro da vida. Olho por cima da grande árvore existencial e constato minha pequenez: minúscula sombra a gritar dentro da noite da vida algumas verdades, síntese da minha verdade maior.

Há uma luz no fundo do poço em que me encontro. Sua cintilação me lembra os teus olhos, espelho verde de esperança em que te vejo e vejo, me lembra as tuas mãos espiritualizadas de carinho, o atlas de teu corpo e a soma de virtudes que te fazem irmã de todas as mulheres, essência e chave da multiplicação da natureza.

Vem comigo, negra! Voltemos a ser crianças. Ajuda-me a levantar esta pandorga carregada de ternura. O vento forte lá em cima, vai faze-la em mil pedaços e, ao invés do sereno, vai chover amor na noite-criança!
Edição 03 - Publicada na Revista Viamão em agosto de 2004.

Boa-noite, meu amor!
Eu te trago, negra, nesta noite prateada de lua cheia, uma história amarga, de terra e sangue, vinda do sertão agreste do Brasil do lado de lá, das caatingas, das charnecas, de lá onde a seca resseca tudo desde a raiz da natureza até a alma das pessoas.
Um matuto humilde, daquelas terras onde tudo se estiola e honra se lava com segue, vivera a vida inteira em função de um esporte bárbaro, terrível, próprio da terra onde se convive diuturnamente com a morte, em função de brigas de galo. E nesse esporte selvagem ele enriqueceu, fez fortuna e fazenda.

Sua grande “arma” fora um nordestino vestido de penas, um galo de puas e coragem invencíveis. Suas vitórias, uma atrás da outra, trouxeram-lhe capital, fama e respeitabilidade. Com o tempo e a soma das vitórias - o matuto ficara rico e o velho galo totalmente cego. Por desnecessário, agora, o matuto abandonou esse esporte. E ficou-lhe somente o galo, velho, alquebrado, e cego. Ele, o matuto rude, mandou fazer-lhe um galinheiro especial, com o maior conforto que se possa imaginar. E foi mais longe: instalou um holofote na abóbada do galinheiro, contratou um empregado e este liga o holofote, diariamente, às seis horas da manhã, para que o galo velho, sob o seu refletor - possa cantar saudando o sol! Simplesmente, para que o velho galo, possa cantar, na reafirmação da virilidade perdida - saudando o surgimento de um novo amanhecer!

Lembrada esta história, que é real, eu fico pensando, amor, que enquanto os homens forem capazes de atos desta grandeza, de atos como este - palpitantes da mais densa humanidade - atos de renúncia, de agradecimento que se traduz em AMOR - estará reafirmada a excelência do existir e valerá a pena continuarmos nos desangrando em amor pelos caminhos do mundo.
Edição 04 - Publicada na Revista Viamão em setembro de 2004.

Boa-noite, meu amor!
Há muito o dia escorregou por entre as franjas das nuvens corredeiras, indo esconder-se tímidamente no côncavo distante que existe entre a terra e o infinito.

A noite é um felino manhoso, que veio na ponta dos pés, muito sorrateiro, se deitou numa nuvem distante e ficou jogando suas sombras sobre uma Viamão cansada que começa a dormir - vale dizer - a fugir das próprias cruezas, nas asas do sono...

A vasta legião dos desamados, neste instante, acalenta uma esperança em cada dobra do coração. Os amantes fazem castelos no ar, constroem e destroem mundos, inebriados, perdidos doidamente nos descaminhos do amor... Os ébrios andam pelas ruas dizendo frases desconexas, cambaleando ao peso das frustrações, rindo da comédia da vida, tamborilando velhas canções de infância...

Um galo canta longe, na infância talvez. No painel de nossa saudade - sorrisos, rostos, mãos, beijos - tudo desencadeia no nosso mundo interior um tropel de ternura, uma incrível palpitação afetiva: restos de instantes que passaram e que marcaram com línguas de fogo a estrutura de nosso espírito...

Movendo tudo, atrás e acima de tudo, a fada esquiva do amor, mola de nossos gestos, poesia que esplende nos olhos da mulher que eu amo, ternura de nossa vivência. Sem ele - sem o amor - seríamos movidos pelos nervos, não pelo coração; seríamos movidos pelos instintos, não pelo espírito.

Sem amor, seríamos espectros de gente, sombras errantes, arremedo de pessoas, restos de grandezas diluídas, pois só o amor é capaz de nos fazer amantes da lua e companheiros de todas as estrelas.
Edição 05 - Publicada na Revista Viamão em outubro de 2004.

Especial: Zumbi e a Negritude
No decênio inicial do século XX, uma pedra-de-toque no crescimento da consciência do negro brasileiro: a Revolta da Chibata, na Marinha de Guerra, comandada pelo marinheiro gaúcho João Cândido - O Almirante Negro contra uma das mais terríveis heranças da escravatura: a chibata. A descrição dessa revolta foi uma bofetada na cara do povo brasileiro. Numa instituição militar de elite, a Marinha, as torturas e infâmias de que continuavam sendo vítimas os descendentes de escravos. Logo a seguir, em São Paulo, vários jornais e organizações de proteção e ajuda mútua, além de denúncias contra o preconceito e o racismo. Dentre os jornais "Clarim da Alvorada", marcadamente de esquerda. Já nos anos 30, a Frente Negra, com todos os seus desvios, pode constituir-se num referencial das lutas de resistência do povo negro. Logo adiante, sufocado o Estado Novo, o TEN - Teatro Experimental do Negro - tendo a frente a figura singular de Abdias Nascimento.

A intelectualidade negra e sua militância, mesmo que ignorada pela mídia, teve um papel importantíssimo no sentido de sepultar a grande babaquice que era essa comemoração de 13 de maio. É quando despontam, a partir da metade do século XX os nomes de Solano Trindade, Abdias Nascimento, Oswaldo Camargo e do gaúcho Oliveira Silveira.

Esses, entre outros, foram os criadores de um movimento de rebeldia e contestação que o tempo passaria à chamar de negritude. Foram inúmeros livros, debates entrevistas e conferências que lançaram as bases de uma nova visão do negro e sua história.

Foi um momento em que o negro começou definitivamente a assumir a sua negritude, o seu valor e a sua historicidade.

Foi daqui do Rio Grande do Sul que partiu, em 1971, do Grupo Palmares, que tinha a frente o poeta Oliveira Silveira, o primeiro texto, o primeiro protesto e a primeira palavra de ordem visando acabar com a farsa de 13 de Maio. Oliveira Silveira propunha simplesmente, como data fundamental para a negritude, o 20 de novembro - aniversário da morte de Zumbi dos Palmares.

Essa é a data, pois que tem tudo a ver, que mais diz respeito ao negro e à história, suas lendas, suas tradições. Essa é a data, pois que tem tudo a ver, que mais diz respeito ao negro e à história, suas lendas, suas tradições.

O 20 de novembro reverencia o maior guerreiro brasileiro de todos os tempos, a figura grandiosa, quase mitológica de Zumbi-o guerrilheiro negro de Palmares, a Tróia Negra, o maior reduto de combatentes já reunidos na América Latina.

Afora os compêndios racistas de nossa história, nenhum mais consegue esconder a rebelião de Palmares, A Guerra de Palmares, que durou quase um século, entre 1700 a 1800, na Serra da Barriga, em Alagoas, onde nasceu, viveu e morreu entre as labaredas dos combates a figura extraordinária de Zumbi.

Zumbi, uma vida inteira á frente de milhares de combates, lutando pela sua - e pela nossa liberdade. Combatendo o preconceito, o racismo, a elite escravista branca, o colonialismo, expressão inicial do sistema capitalista de exploração.

Ele e seus guerreiros foram expressões superiores da raça, da espécie humana. Com sua história e sua bravura rasgam um clarão no tempo e escrevem, ali, a história de sua dignidade.

Os negros de hoje são seus herdeiros, seus testamenteiros. Eles têm que carregar esta bandeira que joga no lixo o folclore desse 13 de Maio, por todos os títulos acintoso, desrespeitoso com os valores da negritude.

Edição 06 - Publicada na Revista Viamão em novembro de 2004 - Edição especial sobre o negro, no Brasil, no Rio Grande do Sul e Viamão.

Boa-noite, meu amor!
Antoine de Saint-Exupéry, no “O Pequeno Príncipe”, traz um diálogo que me parece denunciador de uma verdade que, pela crueza, não pode ser esquecida: ele denuncia a superficialidade , o vazio, a pobreza espiritual que tantos avilta e materializa.
Se dissermos a uma pessoa: “Eu comprei uma casa alto de uma colina, com árvores que abrem os braços para o céu; com pássaros que me acordam pela manhã; com uma frente que recebe os primeiros beijos do sol a cada dia; com flores que enfeitam e perfumam os meus caminhos...” Se dissermos só isso, essa pessoa dará de ombros, indiferente, pois afinal não estamos a dizer-lhe nada...

Se dissermos, porém continua Saint-Exupéry assim: “Eu comprei uma casa que custou 600 mil reais”, essa pessoa vai nos olhar, encantada, e dizer: “Que casa linda!”. Esse diálogo denuncia um materialismo grosseiro, uma falta de grandeza que, como vírus, está se disseminando cada vez mais, entre os homens, em todos os lugares da terra.

É bom pensarmos nestas coisas, nesta entrada pelos caminhos de uma nova madrugada, para que um novo dia nos encontre integrado a grande legião dos que entendem que o homem dotado de uma chama imortal, feita de fé e de Amor, a qual nos diferencia dos animais e nos engrandece como pessoas HUMANAS.
Edição 07 - Publicada na Revista Viamão em dezembro de 2004.

Boa-noite, meu amor!
08 - Amargo este silêncio da noite que caminha para a noite maior das coisas insondáveis. Amargo e monótono este desfilar das horas que se arrastam, como deuses mortos. Amargas as raízes deste amor que amamos e odiamos, amargos estes sonhos, amargas estas gotas de ternura, amargo, muito amargo este egoísmo, este medo de perder-te...

Vem, negra. Dá-me a tua mão. Andemos um pouco. Para onde? A noite esta lá fora, convidativa, amante, sensual, com seu cortejo de estrelas solitárias.

Se nada tenho para dar-te eu te ofereço esta noite, este céu, estas estrelas, esta brisa que brinca com os teus cabelos...

Vem, negra. As flores da noite te ofereçem o seu melhor perfume... A lua, invejosa, vai matizar de luzes a tua caminhada... As pedras do caminho vão beijar os teus pés e os raios de luar vão abrir os braços numa moldura para teu corpo...

Eu sou todos os homens e tu és todas as mulheres. Num só. Num beijo de luz que se ergue para saudar o prenúncio de um novo dia, num canto de paz, pois assim que amam todos os homens e todas as mulheres, com as fibras de sua pobre humanidade, com os restos de sua sofrida ternura, com o sangue de um coração que se abre para o mundo entoando um hino de fé, um hino de AMOR no destino de todos nós...

Edição 08 - Publicada na Revista Viamão em janeiro/fevereiro de 2005.

Boa-noite, meu amor!
Há uma estranha orquestração na noite lânguida, preguiçosa, que se arrasta tropeçando nas estrelas, como um menino triste carregando um fardo.

Uma música misteriosa, de acordes mágicos, feita talvez de réstias de luz e treva, entra pela nossa carne, pelo nosso sangue, tomando de assalto os espantos e solidões que se escondem no nosso mundo interior. Da terra que freme, pelo calor, surgem tentáculos invisíveis - bocas e mãos - enlaçando a nervatura de nossos sentidos. Há um vasto cobertor negro sobre o mundo e sob ele nos agitamos, vivemos, sofremos, perpetuamos a espécie e gritamos alto pois que com o espírito, a pobreza da condição humana...

Deitar raízes sobre a terra, abraçar o mundo, com a excelência de suas grandezas e a tristeza de suas misérias, essa a ordem do dia. Viver para tudo, tudo ver, de tudo participar, rir, chorar, deixar, enfim, que a correnteza da vida flua por entre os nossos dedos, com o sabor da água cristalina que vem de uma fonte.

A vida é um convite, uma provocação, um chamamento, um desafio. Viver é assumir a condição humana na sua integralidade. O resto é não-viver. Vem comigo. Vamos rasgar uma clareira no tempo e sair por aí, com as mãos cheias de ternura que o mundo será terno conosco. Iremos pisando espinhos e recebendo beijos de flores, morrendo e renascendo em casa sorriso, em cada gesto afetivo, morrendo e renascendo, a cada instante, no doce e mágico mistério do Amor.

Edição 10 - Publicada na Revista Viamão em maio de 2005.

Boa-noite, meu amor!
Te penso e penso nessa noite que se derrama sobre lonjuras difíceis de imaginar. Lembro a história daquele camponês humilde lá dos fundões da Espanha, o qual sonhava com grandes viagens, grandes descobertas, grandes conquistas, lugares de beleza nunca vista. Campônio simplório – já se vê – para quem a felicidade era aparentemente uma meta inalcançável. Até que um dia, depois de uma noite cravejada de estrelas, acordou, pela manhã, com o coração explodindo de ternura: um pássaro do campo cantará para ele acordar. Lá fora, matizando a sua choupana tosca, as árvores abriam os braços para o infinito, numa doce sinfonia de cores, luzes e paz.
Ao acordar, extasiado, a manhã jogava sobre ele a imensa poesia de suas formas de perpetuar a vida verdadeira. De pé, ele viu os pássaros em revoada, com as asas abertas, numa cantata de amor à vida. O riacho preguiçoso, ali adiante, como sempre, marulhava baixinho, somando a sua voz à voz da natureza que explodia em toda a sua majestade. O milagre se processará: o campônio sonhará a vida toda com belezas, conquistas e maravilhas que – de repente – estavam ali, sob os seus pés, para o brilho de seus olhos e o toque de suas mãos. Na exata altura de seu coração.

Paremos um pouco, negra, reavaliemos as coisas que nos cercam.

Possivelmente o sonho que sonhamos está dormindo dentro de nós. A beleza que buscamos talvez esteja ao alcance de nossa vista e não nos tenhamos percebido. Em verdade, só o amor tem resposta para nossas angústias, pois, como afirmava Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos”.

Edição 11 - Publicada na Revista Viamão em junho de 2005.

Boa-noite, meu amor!
É tudo calma, mansidão na noite preguiçosa. Há muito as trevas da noite estenderam seu manto esfarrapado sobre uma cidade que começa a fugir da realidade quotidiana, nas asas do sono. O ar é morno e tem um quê de mistério, de deslumbramento. Cada minuto que passa vem com uma carga mística, uma dúvida, o resto de uma saudade. Uma tristeza canta em cada rodado do tempo, uma ponta de solidão entorpece os sentidos da mulher amada.
Esta é uma hora de mistério, povoada de lembranças.

Na nossa amarga caminhada sobre a face da terra, temos andado a nos violentar: cada amigo que dobra a esquina da morte, leva um pedaço de nós. Cada afeto que perdemos, é uma fraqueza a mais na raiz do espírito. Cada desencanto, uma ruga que nos nasce no coração.

Sendo uma hora de mistério e de lembranças, esta também é uma hora de amor, hora em que, na sua solidão, o homem se dobra para dentro de si mesmo, reavaliando seus objetivos, aquilatando a própria estupefação na andança das horas, buscando um sentido para a vida.

Tudo é fugaz na vida que escorre pelas ruas, pelas calçadas. Tudo tem fim: nossos sonhos, nossas esperanças, nossa alegria e nossos desencantos. Só o amor que, num ciclo mágico é capaz de viver além da morte, é eterno, real e verdadeiro. Graças a ele, a vida continua...

Edição 13 - Publicada na Revista Viamão em outubro de 2005.

Boa-noite, meu amor!
Hoje eu vi uma criança sorrindo e, na explosão de sua ternura, eu tive vergonha das minhas frustrações, tive vergonha de estar ajudando a construir um mundo que é duro como um rochedo, uma figura monstrenga que vai se arrastando numa esteira feita de lágrimas de crianças, de queixumes maternos e desesperanças humanas.

Hoje eu vi uma criança sorrindo, recebi um beijo de sol sob uma estrada que se estendia aos meus pés, sequiosa de rumos. O sorriso meigo dessa criança se fez música nos labirintos do meu espírito e, quando me apercebi, em pleno dia, nasciam rosas no meu sangue e escorriam pedaços de estrelas pelas minhas mãos.
Hoje eu vi uma criança sorrindo e o eco desse sorriso ficou dançando numa saleta colorida, se fez poesia, e na geografia de seu nascedouro, gritou no afeto dos que ali respiravam, que o mundo seria outro se todas as crianças sorrissem todos os dias.

Hoje eu vi uma criança sorrindo e o sincopado desse sorriso fez mil deuses chorarem porque os homens, empenhados no combate feroz da sobrevivência, encaramujados no seu egoísmo, estão construindo um mundo só para eles e não se apercebem da magia que jorra, aos borbotões, num sorriso de criança...

Ah, porque hoje eu vi uma criança sorrindo eu estou vislumbrando uma luz no amanhã e me agarro à esperança de que, um dia, tão claro como uma manhã de primavera, a musica dos sorrisos das crianças vai invadir todas as comportas do coração dos homens e estes farão um mundo melhor, com flores, com canto de pássaros e com uma sinfonia magistral, feita de sorrisos de crianças...

Edição 14 - Publicada na Revista Viamão em novembro de 2005.


Boa-noite, meu amor!
A noite vai alta, negra, e há uma estranha magia perdida nas fimbrias de cada segundo que passa. Dir-se-ia que a alma da noite estendeu um manto enorme sobre o mundo e pelas suas frestas anda a deitar sementes de esperança, nesgas de carinho e confetes de ternura.

Rumor de carros, vozes distantes, chama emotiva nos pilares do coração, e, a saudade presença dos ausentes embalando os nossos sentidos na noite que é fria como os olhos dos desmamados. Nossa mensagem, pois, nosso convite é para uma parada no tempo e na vida, revisando conceitos, valores, formas expressionais, enfim, esse conjunto de ingredientes que fazem girar a maquina do cotidiano.

A vida, em verdade, só tem sentido quando posta em função de um grande ideal ou de um grande amor. Afora isto, seremos espectros de gente, sombras fugidias, passaremos pela vida sem tê-la vivido, sem tê-la sentido na experiência grandiosa e única de suas pulsações.

Se no dia que findou ainda agora, alguns sonhos viraram grãos de areia e se perderam nos confins do nada não importa.

O que vale é que continuamos humanos, transformando nosso espírito numa janela aberta para todos os horizontes, no leito plácido de um rio por onde rolam, uma a uma, nossas esperanças, nossas emoções, nossos sonhos e nossos amores.

É tempo, pois, de energizar motivações, de voltar a sonhar, de dar a volta por cima, de voltar a amar, vale dizer, de voltarmos a nos encontrar com aquela soma de valores universais que quebram a miserabilidade da condição humana e nos fazem irmãos de todos os homens e de todas as mulheres.

Edição 16 - Publicada na Revista Viamão em janeiro/fevereiro de 2006.

Boa-noite, meu amor!
Das veias abertas da noite-criança, está gotejando ternura, paz, amor e resignação. Te penso e penso com a alma tremendo sob o sinete de cada segundo que passa. Aquela estrela perdida que ainda há pouco cortava o espaço infinito, foi uma intenção de carinho que eu te mandei. Os riscos dos vaga-lumes, são esperanças que tracamos.

Cada estrela que se acende no descampado da distância, é uma chama que passa a arder no coração dos que amam, na alma dos poetas e no coração das crianças. O silêncio é um lençol que desenha pilocromias musicais na sinfonia das horas que correm, inexoráveis e que vão esplender, quais relâmpagos, no espírito dos desamados.

Amar, tudo amar é a palavra de ordem. Amar as pessoas, amar os animais, amar o mundo, amar a vida, amar o próprio amor, desde que este, como polvo, estenda os seus tentáculos até as raízes de nós mesmos sobre a terra. E que a dimensão de nosso amor seja tão alta, tão grande e tão maravilhosa que sedimente, de uma vez por todas, os pilares de um mundo mais justo, mais humano e mais fraterno.

Edição 18 - Publicada na Revista Viamão em março de 2006.

Boa-noite, meu amor!
A alma da noite se liberta de seus grilhões e ainda por aí, pelos silêncios do mundo, reverdecendo as sementes da sensibilidade, cadenciando de ternura o coração dos homens pintando de lilás a estrada de cada segundo que passa...

A noite é tão fria que faz gelada a solidão dos desamados. Uma aragem amarga perpassa pelas minhas mãos, entra pelo meu sangue, pela minha epiderme: a sombra do desencanto, um dos males deste século em que o homem, nota musical perdida no concerto da vida, anda de encruzilhada em encruzilhada com o espírito chicoteado pelas grandes dúvidas: quem sou, de onde venho e para onde vou?

Ao homem, bem no fundo, pouco importam as grandes conquistas, as grandes vitórias, as grandes fortunas e as grandes glórias. Ao olhar-se no espelho do coração o homem ganha consciência de que tudo isso é elementar, fugaz, passageiro como os meteoros que cortam a lâmina das distâncias.

Em verdade, o homem não deve importar-se com as coisas em si, mas com a sua essência – vale dizer – como a abelha que extrai o mel do seio das flores o homem deve arrancar das raízes da vida uma razão superior para viver! Sem isso nada conta, nada importa, nada vale e nada há de ficar na peneira existencial para onde correm as nossas grandezas e misérias, para onde corre, enfim, ávida de todos nós!

Edição 19 - Publicada na Revista Viamão em junho de 2006.

Boa-noite, meu amor!
Uma brisa suave anda lá fora marcando o compasso das horas, arrulhando com a noite-criança, brincando com os cabelos da minha amada. Se tudo tem sua função na doce harmonia do mundo, o vento também: ele é o mensageiro dos suspiros e dos sussurros de todos os que amam, dos que tem o coração aberto para a terna realidade dos sentimentos.

Se a saudade é a presença dos ausentes, como queria Bilac, essa brisa noturna que anda por aí crestando espinhos e ninando rosas, deve ser a síntese de todos os beijos roubados, das mãos que se ergueram, chorosas, num adeus de despedida. Esse vento deve ser um resumo de todas as frases de amor, do pranto de todas as mulheres e do sorriso de todas as crianças...

É doce e terna a andança da brisa entre os cabelos da noite, noite aconchegante como a prisão dos braços da mulher que amamos.

O vento pede licença para ventar e vai continuar, na noite longa, a bater nas janelas do espírito de tantos quantos ainda são capazes de amar. De tantos quantos ainda são capazes de vencer as borrascas da vida, por-se de pé, acreditando, mesmo quando tantos nos gritam o contrário – que o Amor é o sal da terra, tábua de salvação, grito de permanência do homem na rocha imortal de todos os séculos!...

Inédita 01

Boa-noite, meu amor!
Há uma ciranda de estrelas fugidias dentro da noite que se distende, como um gato preguiçoso, nas plagas distantes. O vento anda brincando de esconde-esconde por entre as roseiras, os humildes arbustos se debruçam, reverentes, saudando a lua – anfitriã da noite – que anda pastoreando nuvens, perdida no infinito.

As grandes árvores centenárias abrem os braços para o alto saudando a madrugada-menina que olha o mundo com dois olhos de espanto. Dormem os homens, na sua maioria. Cansados todos, pois, vêm de uma caminhada de milhares de anos, passos trôpegos, indecisos, calejados.

Trazem nas dobras do espírito incríveis grilhões, heranças amargas da espécie: mágoas, dores, queixumes, rancores, malquerenças. Eles, os homens, venceram milhares de combates mas não conseguiram vencer as batalhas travadas nas antecâmaras do coração: o egoísmo, a descrença, o medo, e acima de tudo o ódio, que lhe corrói as entranhas, como um verme.

Metade da humanidade dorme neste instante. E esse sono tem muito de redentor, de fuga, de recolhimento. É a entrada no mundo onírico, povoado de fantasmas tão caros ao nosso coração: a mulher amada, o afeto perdido, o amigo que partiu na grande viagem sem retorno. Esta, pois, é a hora do amor, um amor fugaz, amargo, misto de riso e lágrima – única porta para nos adentrarmos nos caminhos da ternura mais alta, sem a qual desceríamos a escola zoológica, a vida se estiolaria e – por Deus! – não valeria a pena vivê-la.

Inedita 2

Boa-noite, meu amor!
Esse frio que anda lá fora é um chicote que se abate cadenciadamente sobre o dorso nu da madrugada. Esta se arrasta gemendo, no extertor de um touro numa arena, atingido pela estocada final. Esse frio é o sopro de um velho – o Senhor Inverno – um capenga de olhar duro e passos cansados, que à milênios, caminha com os pés acorrentados, ofegante, trôpego, duende maldito de todas as solidões.

Esse frio, que fustiga a alma das estrelas, carrega o gelo das mãos de todos aqueles que morreram sem amor. Esse frio que anda lá fora, carregado de mistérios, é o cobertor com que se cobre o Inverno, “um capucho de barbas brancas, as canelas cor de cinza e um joelho marcado de reumatismo”, no dizer de um poeta.

Ranzinza, o Senhor Inverno manda todos mais cedo para o mergulho no sono. Se não é obedecido ele explode a sua fúria pelas ruas, pelas avenidas, por todos os caminhos. Seu látego zumbe na noite-criança, que se encolhe, que se dobra como uma flor cortada na haste.

E tudo o Senhor Inverno gela na sua fúria: as pedras do caminho, a copa das árvores, a água dos riachos, a alma da natureza. Só para os homens, porém, o inverno deve perder o seu combate: gelando tudo – não vai conseguir apagar nunca o fogo do seu amor, não vai matar nunca a chama da Esperança que se renova a cada segundo, acima do tempo, na alma de todos nós.

Inédita 3

Boa-noite, meu amor!
A noite é calma, suave, morna como um beijo de sol sobre uma rosa em botão. As estrelas namoradeiras andam a vagar, solitárias, arrastando entre si uma vasta colcha bordada de luzes...

Uma vasta porção de gente, aqui nesta selva de concreto que é Porto Alegre, já está dormindo. De há muito as últimas barras do dia agonizaram, num manso extertor, deixando um último adeus de saudade perdido sobre os montes, os vales, as colinas.

Mas o dia é teimoso: dentro de pouco, espancando trevas, ele virá enfiando réstias de luz por milhares de comportas que se abrirão no infinito. E a manhã virá com roncos de motores, com cantos de pássaros, com vozes humanas. Homens e mulheres para quem viver é lutar, gente como nós que faz do peito uma trincheira e para quem sonhar é uma forma de sentir-se humana, vão sair para a rua, para mais uma jornada de suor e trabalho.

E crianças também, crianças que vão para as creches, para os orfanatos. Menininhos franzinos, de passos tímidos, que saem com suas caixas de engraxate, com seus grandes olhos de espanto para o mundo que é frio, duro, onde há muito a ternura humana foi esquecida, porque não vende, não dá lucro.

Penso em vocês, meninos da rua que não me escutam. Penso em vocês, que não pediram para nascer. Penso em ti, menino da rua, que andas por aí espargindo a poesia simples de tua infância sem destino, com o infinito no peito frágil e com uma estrela em cada mão.

Inédita 4

Boa-noite, meu amor!
A noite é uma tela multicolorida que jogaram para cima e lá ficou, sustentada pelos pilares das distâncias. As estrelas são meninas órfãs que, ora passeiam solitárias no infinito, ora rezam pela alma do dia que se foi para a noite grande do tempo, ora cantam uma cantiga de ninar para este nosso vasto e absurdo mundo que dorme.

As gotas de orvalho são lágrimas da lua que está cansada do próprio cansaço, farta de solidão e que tem os pés sangrando pela sua caminhada milenar em busca do Astro-Rei, o dono do seu coração... Quando o sereno vem dormir no seio das flores, eu penso em vocês que trabalham à noite, que casaram com a noite, que porejam de esperanças os caminhos do mundo, muitos e muitos, abraçados à solidão de todas as solidões.

Penso nos homens cujos olhos se dilatam na distância em busca da companheira, perdida na geografia noturna; sonhos, afetos, sentidos voltados para o filho, a filha – poemas de carne tragados pelas distâncias.

Penso em vocês, mulheres que trabalham à noite. O coração na mão, a contagem dos minutos e as horas se arrastando com pés de barro, lentas, lentas, miseravelmente lentas. Um sonho em cada escaninho do coração, uma ansiedade em cada mão, uma ternura esquiva em cada olhar cansado. Lá fora o mundo: sonhos, esperanças e uma grande promessa de Amor, bálsamo para as feridas que ficam em nós, na abertura preguiçosa do leque das horas.

Inédita 5

Boa-noite, meu amor!
É noite alta. Hora de recolhimento, hora de paz, hora feita para o amor. A escuridão lá fora é como se houvessem estendido uma colcha negra sobre Porto Alegre. Nos adentramos já no seio da madrugada-menina, que a todos irmana, que a todos iguala...

O lençol verde dos jardins está agora mais verde, pela chuva que veio, benção do infinito, fecundando a terra e explodindo na poesia simples que foi cantar na voz dos riachos e das cascatas...

É madrugada lá fora. Este é o pedaço mais verde, é o pedaço mais terno da noite, prenúncio de um novo dia que há de despontar, daqui a pouco, nos levando para as ruas, para as avenidas, engrandecendo o dia com o suor do nosso rosto, dignificando a espécie, na valorização de cada instante vivido.

É tempo pois, de nos voltarmos para a excelência de nosso mundo interior e lá avivarmos a cinza de nossa coragem, de nossa força e, acima de tudo, de nossa fé para o duro combate de um novo dia.
A grande verdade é que cada dia que passa é um desafio. Há que buscar pois, na oficina do espírito, fé e coragem, amor, para recomeçar. Sem isto, sem estes ingredientes não teremos nas mãos a grande poesia da vida.

Agiremos sim, não movidos pela fé que enobrece, mas pelo instinto que só assinala caminhos. Sem coragem, seremos sombras tímidas que percorrem vielas escuras... Sem sentimentos, agiremos sim, mas movidos pelos nervos, não pelo amor, única seiva que engrandece e que é capaz de nos projetar nas raias do tempo, feitos que somos à imagem e semelhança de um mesmo Deus.

Inédita 6

Boa-noite, meu amor!
Eu já te falei, negra, da grande poesia que se esconde nos cabelos negros da noite. Te falei da poesia da lua, a enamorada da solidão, rainha da madrugada-criança, que desfila garbosa nas sidéreas plagas, enquanto as estrelas, suas filhas, cravejam de rosas a sua caminhada.

Eu já te falei, negra, da brisa noturna – essa menina travessa – que brinca de esconde-esconde com as flores enamoradas de todos os jardins...

Pois hoje eu quero te falar da chuva, negra, essas lágrimas benditas que vem das alturas para fecundar a terra-mãe, para verdejar os campos, para limpar as ruas, para provocar a grande explosão da natureza que vai cantar seu canto bravio, lá adiante, na voz dos rios, dos oceanos, das cascatas...

Eu quero te falar da chuva, negra, síntese das lágrimas de todos os deuses, suor das estrelas, bálsamos para os campos, os vales, as montanhas, cujo dorso ardeu o dia inteiro sob o chicote de fogo do Astro-Rei...

Olha a chuva da tua janela, negra! Olha! E deixa, amor, que a chuva siga cantando para ti a sua enternecida canção de ninar. Que o espírito da chuva, que reverdece os campos e a tudo dá mais vida – que esse espírito entre pela tua carne, pelos teus sentidos e, tu e a chuva, irmanadas, cantarão dentro da noite UMA DOCE E TERNA CANÇÃO DE AMOR!...

Inédita 7

Boa-noite, meu amor!
A noite é uma âncora de cera que desce lentamente no lago das distâncias e de lá se derrama em gotas de sereno nesta noite que é fria como a mão de um morto, quieta como o silêncio que me sucederá, serena e plácida como os olhos da minha amada.

Cada minuto que passa vem carregado de frio e silêncio. O vento parou de ventar, gelado também. As estrelas-meninas vieram dormir no seio das rosas e flores silvestres estão tremendo de frio e de inveja. Nas campinas um lençol branco começas a estender-se, formando um vasto espelho para a vaidade da lua.

E os homens? Os homens andam por aí, amando e odiando, sorrindo e chorando, caindo e se levantando, enfim, vivendo a vida e pagando caro por vivê-la. Os culpados são eles mesmos: ao longo de mil e novecentos anos aprenderam muito, mas não o suficiente: ainda não aprenderam a lição primária – a que ensina a ser feliz.

Mas, longamente fermentada, começa a explodir no coração da humanidade uma ânsia incontida de mudar, mudar rumos, conceitos, vivências, comportamentos e posicionamentos.

O homem começa a entender que o egoísmo, o ódio, a maldade e a descrença devem ceder lugar para os grandes rasgos de bondade, de fé, de esperança, e a cima de tudo de Amor – seiva e sumo de todas as belezas, bandeira real da perpetuação da espécie...

Inédita 8

Boa-noite, meu amor!
A noite arrasta sua correntes de silêncio sobre o grande palco do mundo. Tudo é harmonia na noite imensa: os ventos ventam mansamente, desgrenhando os cabelos da mulher amada. Silêncio carregado de silêncio na noite grande...

Vozes e ruídos quebram a monotonia do instante alto: são os trabalhadores anônimos da noite, amantes da madrugada, companheiros das estrelas, solitários como todos os solitários. O seio da lua treme com o apito do guarda noturno. As estrelas, com seus olhinhos de cristal, morrem de ciúme dos namorados nas praças, dos homens da bandeira-dois que andam de um lado para o outro, dos mendigos que se amam sob as marquises.

Daqui há pouco os galos estarão cantando seu canto esperantista – igual em todos os lugares do mundo - saudando os primeiras barras do dia.

A verdade é que se não houvesse o dia não haveria, também, o grande colorido poema da madrugada, a madrugada desta noite-criança que a todos irmana e enlaça numa mesma Esperança, num mesmo Sonho de Paz, multiplicando ternura como Deus um dia, no inexplicável mistério da fé – promoveu a multiplicação dos pães.

Inédita 9

Boa-noite, meu amor!
É noite alta. Hora de recolhimento, hora de paz, hora feita para o amor. A escuridão lá fora é como se houvessem estendido uma colcha negra sobre Porto Alegre. Nos adentramos já no seio da madrugada-menina, que a todos irmana, que a todos iguala...

O lençol verde dos jardins está agora mais verde, pela chuva que veio, benção do infinito, fecundando a terra e explodindo na poesia simples que foi cantar na voz dos riachos e das cascatas...

É madrugada lá fora. Este é o pedaço mais verde, é o pedaço mais terno da noite, prenúncio de um novo dia que há de despontar, daqui a pouco, nos levando para as ruas, para as avenidas, engrandecendo o dia com o suor do nosso rosto, dignificando a espécie, na valorização de cada instante vivido.

É tempo pois, de nos voltarmos para a excelência de nosso mundo interior e lá avivarmos a cinza de nossa coragem, de nossa força e, acima de tudo, de nossa fé para o duro combate de um novo dia.
A grande verdade é que cada dia que passa é um desafio.

Há que buscar pois, na oficina do espírito, fé e coragem, amor, para recomeçar. Sem isto, sem estes ingredientes não teremos nas mãos a grande poesia da vida.

Agiremos sim, não movidos pela fé que enobrece, mas pelo instinto que só assinala caminhos. Sem coragem, seremos sombras tímidas que percorrem vielas escuras... Sem sentimentos, agiremos sim, mas movidos pelos nervos, não pelo amor, única seiva que engrandece e que é capaz de nos projetar nas raias do tempo, feitos que somos à imagem e semelhança de um mesmo Deus.

Inédita 10