Arqueologia
Por Vinícius Marques

Viamão, 13 mil anos - Sob o viés Arqueológico
Introdução
Viamão é um município de grande relevância histórica no processo de formação sociocultural do sul do Brasil. Sendo um dos mais antigos do estado do Rio Grande do Sul no que diz respeito a sua fundação e praticamente berço do aquerenciamento luso no seu território mais meridional. O processo de formação histórica e cultural dessa região é fruto da interação entre vários grupos humanos que por aqui passaram ou se fixaram.
Parte da história da ocupação dessa região é relativamente bem conhecida (a ocupação histórica), conhecemos parcialmente os agentes históricos dessas narrativas como militares, políticos, comerciantes, estancieiros entre outros.
Mas existem muitos pontos obscuros no nosso conhecimento sobre a região, os quais permitem que haja investigação científica, pesquisa histórica e arqueológica, que busque resgatar componentes de nossa história, ou até mesmo trazer à tona novos fatos e hipóteses sobre elementos e figuras da história da região.
Muitas heranças culturais e sociais transmitidas pelos atuais viamonenses, permanecem incógnitas, pois não fazemos o desvelamento das situações que foram matrizes formadoras de nossas tradições e de nossa sociedade, apenas replicamos e em grande parte sem questionar ou querer saber o porque de certos fatos ou eventos. O menosprezo ao qual relegamos certos grupos humanos que fizeram parte da formação cultural da região, ainda hoje reflete em preconceitos reproduzidos e arraigados em nossas instituições. Discursos passados adiante ao longo dos anos e aceitos sem maior questionamento e inclusive ensinados em nossas instituições de ensino.
Na história do município de Viamão, protagonistas desconhecidos deixaram sua herança sociocultural embora não tenham deixado seu nome na História.
Ocupantes originários da região, negros, trabalhadores braçais pobres entre outros, (Horizonte do Paleoíndio), os caçadores de paisagem semiaberta (tradição arqueológica Umbu), coletores pescadores do litoral (tradição arqueológica Sambaquiana), caçadores-coletores de floresta subtropical (tradição arqueológica Humaitá), caçadorescultivadores dos campos do sul (tradição arqueológica Vieira), cultivadores com tradição amazônica (tradição arqueológica Guarani), cultivadores incipientes do planalto (tradição arqueológica Taquara), na chegada do europeu as sociedades ditas pré-históricas enfrentaram a crise da dominação colonial e tiveram que se adaptar, para esse momento e posteriormente a este se identificou às novas relações, o que dentro da arqueologia foi identificada como Tradição Arqueológica Neobrasileira que englobava todos estes momentos de
contato e posterior ocupação relacionada às Missões Jesuítico Guaranis no RS, à ocupação portuguesa e a colonização açoriana, à escravidão e a imigração forçada de africanos, etc) e a outros momentos históricos (SOUZA, 1992 apud CARLE, 2008, p. 67).
 
1 Arqueologia é a ciência que estuda os costumes e culturas dos povos antigos através de fósseis, monumentos, etc. - HOUAIS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário da língua portuguesa – 2.ed. Rev e aum. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. - Acrescento a essa definição o estudo de todas as evidências materiais para fins de compreender as populações antigas. Conforme referência em aula no dia 06/08/11 é a ciência que estuda os sítios arqueológicos. A palavra tem origem no grego, que significa: archaios (antigo) e logia (estudo) = estudo de coisas antigas.
2 Informações que dão subsídio ao parecer sobre a situação do patrimônio arqueológico do RS, atendendo solicitação do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul - Arquivos da 12ª SR/ IPHAN.
Por Vinícius Marques

As primeiras populações humanas no RS
Os paleoíndios na região de Viamão
Os primeiros humanos, que chegaram a região de Viamão, enfrentaram um clima muito diferente do atual. Há treze mil anos aproximadamente, quando essa ocupação ocorreu, a região estava sob o efeito da Glaciação. A preferência desses grupos humanos era pelas regiões dos grandes rios, com maior umidade, abrigados dos ventos gelados e secos, com vegetação exuberante e também uma rica concentração da fauna da época, a megafauna, composta por animais de proporções gigantescas, os fatores citados proporcionaram a sobrevivência dessas populações (CARLE, 2008, p. 67).
Deste período não temos na região a ocorrência de sítios arqueológicos3, pois os vestígios encontrados são poucos e esparsos. Também se sabe que os caçadores da megafauna não se fizeram presentes em abundância nessa região. Porém o que nos comprova sua passagem pela região são ossos fossilizados de animais que serviram à alimentação desses indivíduos e artefatos de pedra lascada. (Idem, p. 67).
Esses grupos paleoíndios eram pouco numerosos e nômades, que se deslocavam sempre atrás de caça, coleta e pesca.
 
3 “Corresponde à menor unidade do espaço possível de investigação, dotada de objetos intencionalmente produzidos ou rearranjados, que testemunham comportamentos sociais do passado.” (MORAIS, 2000 p. 8).

Evolução das tecnologias, outros grupos, outras tradições4
Vestígios da Tradição Umbu na região de Viamão
Ao final da glaciação, com o aquecimento da região correspondente ao sul do continente americano, englobando o atual RS, e a extinção da megafauna5, as populações da época modificaram suas tecnologias. Isso ocorreu a aproximadamente 10 mil anos, e as novas tecnologias dos grupos humanos desta região chama-se Tradição Arqueológica Umbu. Segundo Claudio Baptista Carle, ele próprio pode comprovar em pesquisas de campo, a evidência de vestígios desta tradição na região de Viamão. (CARLE, 2008, p. 68).
Desenvolvida pelos grupos de caçadores-coletores, essa tradição representou a diversificação e o aprimoramento das ferramentas em pedra (OLIVEIRA, 2010, p. 3).
As áreas de habitação da Tradição Umbu são de pequenas dimensões, destacam-se antigas fogueiras e instrumentos líticos confeccionados por lascamento, picotamento e polimento, como raspadores, furadores, facas, talhadores e quebra cocos, além das pontas líticas, encontradas em maior quantidade, e que são em geral simétricas e muito bem elaboradas. Também são encontradas bolas de boleadeira (SOUZA, 1992, p. 15 apud CARLE, 2008, p. 68).
Esses grupos eram bandos de nômades que percorriam grandes distâncias em busca de recursos necessários a sua sobrevivência, encontravam melhores condições nos ambientes alagadiços e habitaram locais com vegetação predominantemente rasteira, os sítios encontrados referentes a Tradição Umbu sempre são em áreas de campo com ampla dispersão dos vestígios (OLIVEIRA, 2010, p. 3).
 
4 A partir desse ponto, serão abordadas diferentes tradições arqueológicas de uma maneira cronológica linear, porém somente serão tratadas as tradições de populações que tiveram alguma relação com a área de interesse nesse trabalho, o município de Viamão.
5 Defendida por alguns autores como consequência natural da mudança do clima, por outros é inclusive atribuída à caça desses grandes animais por parte das populações humanas.
Há aproximadamente dois mil anos os representantes da Tradição Umbu receberam influências de outros grupos, que já praticavam o cultivo de vegetais e uma incipiente cerâmica. Esses grupos, que já praticavam o cultivo de vegetais e uma incipiente cerâmica. Esses grupos podem ser associados a remotos ancestrais de grupos indígenas como Charruas, Minuanos, Yarós e Guenoas (CARLE, 2008, p. 68).

Populações Sambaquianas e sua possível rota de passagem por Viamão e arredores
Os sambaquis do Rio Grande do Sul, não são os mais antigos do Brasil, esse tipo de tradição e cultura material se originou no litoral de São Paulo e Paraná e se expandiu para norte e sul, a partir desses pontos. Estima-se que os primeiros sambaquis de Torres tenham surgido em torno de dois mil a.C. (SCHMITZ, 2006, p. 21).
Nesse período, com o aumento da temperatura do Oceano Atlântico, e a diversificação e proliferação da vida do ecossistema do litoral do Rio Grande do Sul, uma considerável parcela dos grupos humanos pré-históricos passa a buscar alimentos na coleta de moluscos e crustáceos, bem como todo o tipo de recursos que pudessem ser aproveitados da região litorânea e regiões alagadiças próximas.
Portanto é possível pensar em trânsito considerável de populações em direção ao litoral, passando pela região de Viamão e arredores, ou mesmo grupos parcialmente fixos nesta região o que lhes facilitaria o acesso ao litoral e áreas alagadiças como o Banhado do Chico Lomã (Santo Antônio da Patrulha), que era um imenso mangue com representações de espécies de peixes, que penetravam nele para desova, sendo uma boa área para caça, pesca e coleta (CARLE, 2008, p. 69).
 
4 A partir desse ponto, serão abordadas diferentes tradições arqueológicas de uma maneira cronológica linear, porém somente serão tratadas as tradições de populações que tiveram alguma relação com a área de interesse nesse trabalho, o município de Viamão.
5 Defendida por alguns autores como consequência natural da mudança do clima, por outros é inclusive atribuída à caça desses grandes animais por parte das populações humanas.
Fonte: Google Mapas
Podemos apenas supor essas passagens, visto que, esses grupos deixavam suas evidencias efetivamente no litoral, seus resto de alimentação, restos de conchas, instrumentos líticos e etc, são somente encontrados em áreas de praia.

Os Guarani em Viamão e arredores
O crescimento populacional na região amazônica, ocasionou uma expansão (através dos grandes rios), em direção ao RS e a esta área de estudo. Os Guarani são esse grupo indígena, resultante desse êxodo. Conquistaram áreas antes dominadas por outros povos pré-histórico. A dominação das terras do sul do Brasil6 por parte desse grupo começou a partir da época de Cristo (CARLE, 2008, p. 70).
Sobre os Guarani, sabe-se muito, devido aos relatos históricos dos viajantes europeus e dos colonizadores que tiveram contato com esse grupo. Também por terem sido escolhidos pelos padres jesuítas como os principais alvos da catequização. Instalavam suas aldeias em clareiras de áreas de mata subtropical, sobre colinas situadas próximas a fontes de água (KERN, 1998, p. 104-125 apud OLIVEIRA, 2010, p. 6).
Cultivavam através do corte e queimada de florestas (técnica de coivara, característica de grupos amazônicos), moravam em aldeias com grandes famílias extensas, navegavam em rios usando canoas, praticavam rituais antropofágicos e eram exímios ceramistas (CARLE, 2008, p. 71).
Eram muito numerosos, índios guerreiros, como o próprio significado do nome revela. Pedro Ignácio Schmitz aponta algumas importantes informações sobre população e área ocupada pelos guarani.
Ao redor de 200.000 pessoas falariam guarani no Rio Grande do Sul ao tempo da colonização europeia. Estavam distribuídas por todas as áreas de mata subtropical, que se estende ao longo do rio Uruguai e seus afluentes, ao longo do rio Jacuí e seus tributários, ao longo da costa marítima e suas lagoas. Pelo norte faziam fronteira com grupos genericamente denominados Guaianás, ocupantes das matas com pinheiros, acima dos 300m de altitude, e pelo sul tinham como vizinhos Charruas e minuanos, ocupantes dos campos. (SCHMITZ, 2006, p. 33).
 
6 Sabe-se que os Guarani, não fizeram uma ocupação restrita ao território brasileiro, pelo contrário, ocuparam uma área bastante ampla, são um elemento étnico significativo em países como Bolívia e Paraguai, mas também existem guaranis na Argentina e Uruguai.

Tempos Históricos
A expansão colonizadora colocou o continente americano na História e as duas grandes potências europeias da época, Portugal e Espanha, em disputa pelo domínio da região da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e também da região do Prata, por ser importante ponto de escoamento das riquezas minerais vindas do centro do continente, como por exemplo as minas de Potosí, região que tinha intensa exploração em suas minas de prata, escoadas depois pelo Rio da Prata.
Esse processo colonizador trouxe grande ameaça as populações indígenas da região. Houve muito conflito, e a mortalidade indígena foi elevada, devido as guerras e a doenças, que os atacavam severamente em caráter epidêmico.
Muitas populações indígenas se deslocaram para fugir dos avanços do colonizador.
Inicialmente essa tática tinha certa eficiência, mas conforme a presença Ibérica na região se tornava massiva, já não haviam mais tantas alternativas. Por exemplo: No Rio da Prata e adjacências, as sociedades indígenas foram espremidas entre o avanço português, do Atlântico em direção ao sul e oeste, e o avanço espanhol, do Vice-Reinado do Peru em direção ao sul e ao leste (CARLE, 2008, p.71).
Nessa primeira fase do processo de colonização. O indígena teve um papel duplo, no qual em nada se beneficiou, sendo hora guia e professor do europeu, nos conhecimentos sobre a região, hora explorado e escravizado como mão de obra cativa.
Os jesuítas portugueses agiram buscando cristianizar as populações guaranis, atacadas pelos bandeirantes paulistas. Alguns questionamentos podem ser feitos a respeito dessa opção pelos guarani, talvez por serem numerosos e dominar esse grupo significaria dominar a maioria, ou pelo simples fato de levarem em conta as características das regiões onde esse grupo vivia, e sua própriatradição. Os guarani já conheciam a agricultura, seria facil empreender um modelo comunal e agropastoril como foi feito nas Missões. Minuanos e Charruas por exemplo, já existiam em menor número, caçadores, e que viviam em um território 9 bem menos próprio para a agricultura não foram alvo desse processo (OLIVEIRA, 2010, p. 7)
Os portugueses de Laguna vieram por mar até a barra do Rio Grande, atual Laguna dos Patos, adentrando pelos rios Gravataí e Jacuí. Utilizaram também a região do litoral para carregar gado vindo do Uruguai até São Paulo (SOUZA, 1992, p. 28 apud CARLE, 2008, p. 72). Nesse período é que Viamão começa a se destacar, primeiramente como ponto de passagem e entreposto luso na região, servindo de amparo na viagem entre laguna e Rio Grande. Viamão possuía fluxo de duas áreas, uma dos campos do Tape, cruzando o Jacuí e o Guaíba pelas ditas Ilhas Fronteiras7, e outra que subia pelo litoral. (CARLE, 2008, p. 72).
Os índios pertencentes a cultura Guarani, receberam diferentes designações, na região de Viamão em especial eram chamados de Carijó, mas também Arachane, denominados assim também nos vales dos rios Jacuí e Ibicuí (Idem). Dessas populações vieram os primeiros contingentes de escravos da região nessa fase da colonização do RS, depois diminuindo em número ao passo que era introduzida a mão de obra escrava africana.
Houve no Rio Grande do Sul a criação de missões jesuíticas, ou reduções como também eram chamadas, eram locais fundados por padres jesuítas com o objetivo de cristianizar e civilizar os índios. Existem sítios arqueológicos que indicam antigos postos missioneiros avançados, em pleno coração do território sul-riograndense e na região de Viamão. Relatos contam que os jesuítas teriam uma capela e um posto avançado de controle do rio Jacuí, no Morro da Formiga, na embocadura que divide o rio Guaíba e a Laguna dos Patos. As evidências são restos de antigos ervais, estâncias e vacarias, marcas do trabalho Guarani (SOUZA, 1992, p. 37 apud CARLE, 2008, p.74).
“Catequizando 'tapes' e 'minuanos' e mesmo alguns 'charruas', os jesuitas foram invadindo o território de nosso Estado, chegando até o Jacuí e ao morro de Itapuã, em que estabeleceram um forte” (COSTA, 1991, p. 128 apud OLIVEIRA, 2010, p. 8).
No município de Santo Antônio da Patrulha, antiga Guarda Velha de Viamão, foi localizado sítio da antiga Guarda Velha. Era um posto militar onde a Coroa Portuguesa cobrava o dízimo de todas as riquezas (em especial o gado bovino e muar) que subiam em direção ao planalto, muitas vezes vindos da Banda Oriental.
Aparecem nesse sítio histórico vestígios arqueológicos do cotidiano dos moradores desta Guarda, do comandante ao corpo da guarda, bem como da população agregada, negra, indígena e mestiça (CARLE, 2008, p. 75).
O início da ocupação europeia efetiva da região de Viamão, está diretamente relacionado à ocupação mais ampla do território sul do Brasil (OLIVEIRA, 2010, p. 7). Os açorianos e vicentinos (descendentes de paulistas) que vieram para essa região, desenvolveram a criação e exploração da pecuária em propriedades extensas, que deram origem aos latifúndios gaúchos. Como toda essa região eram uma fronteira aberta e não delimitada, objeto de disputa entre as coroas ibéricas, os conflitos eram constantes. O que fez surgir a figura dos estancieiros militares, chefes de milícias que eram formadas por peões, índios, mestiços e negros, preparados para a luta e a lida com o gado (CARLE, 2008, p. 75).
Era comum à época (século XVIII) que a região fosse referida com o nome genérico de “Campos de Viamão”. Os campos de Viamão tinham como limites: no sul, da Laguna dos Patos até a área setentrional do canal de São Pedro; ao norte atingiam o Mampituba; a oeste, se estendiam até as proximidades das Missões dos jesuítas espanhóis, Jacuí adentro, em terras onde seria construído, na metade do século XVIII, o forte do Rio Pardo (COSTA, 1991, p. 37 apud OLIVEIRA, 2010, p. 8).
 
Acredito que a história dos Campos de Viamão reflete com bastante precisão as transformações pelas quais passou o Continente como um todo durante a segunda metade do século XVIII. No princípio foram os tropeiros, interessados no gado sulino, que foram se afazendando nas estâncias de Viamão. Com a criação da capela, depois da freguesia surgiu também o incipiente núcleo urbano do arraial, que se tornou a sede do poder local (em especial a Câmara) e dos representantes da Coroa (governador e provedor) quando aconteceu a invasão espanhola do Rio Grande em 1763.
Porém a transferência da capital para Porto Alegre em 1773 acabou com o protagonismo do arraial, que retornou ao seu cotidiano ruralizado. A paisagem agrária agora não se compunha somente de estâncias ou vastas sesmarias mas também das pequenas propriedades camponesas, típicas do mundo rural do Antigo Regime.(KÜN, 2008, p. 107).
Quando nos referimos à Viamão dos primeiros séculos de colonização europeia, um dos pontos que não podem deixar de ser referenciado é o porto de Itapuã. O porto foi durante todo o século XVII e na maior parte do XVIII o único porto da grande região de Viamão, era portanto de grande importância estratégica e movimentado para os padrões regionais da época. Por ele chegaram os povoadores vindos de Rio Grande. Era formado por uma ponta de terra situada entre a Laguna dos Patos e o Guaíba. Itapuã foi local de chegada à região até a década de 1770, quando a capital da província é transferida para Porto Alegre, e passa a ser utilizado o “Porto do Dornelles” ou “Porto dos Casais” (COSTA, 1991, p. 101 apud OLIVEIRA, 2010, p. 8).
A partir do Tratado de Madri (1750) e a decadência das Missões, a Coroa Portuguesa designa casais açorianos para que sejam ps novos ocupantes da região missioneira, agora território luso. O que acabou ocorrendo com os casais que partiram de Laguna, foi que estes ficaram parados no Porto de Viamão e acabaram se assentando por toda a região, o que formou o futuro Porto dos Casais, depois Porto Alegre. Em 1780, desenvolve-se o ciclo industrial charqueador, na região do arroio Pelotas, Laguna dos Patos, rios Camaquã, Jacuí (área de Viamão) e Taquari, ocorre então a intensificação do uso da mão de obra negra escrava.
A arqueologia de hoje busca vestígios dessas ocupações das antigas manufaturas de carne, como sebo e graxa, composto de restos de galpões, varais, tanques, trapiches, dutos, fornos e chaminés, habitações dos proprietários (casas grandes) e senzalas de escravos, e lixeiras com grande quantidade de ossos bovinos (CARLE, 2008, p. 76).
Os primeiros sesmeiros da região dos Campos de Viamão, instalaram-se ainda na década de 1730 (muito antes da vinda das famílias açorianas após o Tratado de Madri), sendo eles: Ana Guerra (1730), que se instalou na região da atual sede do município teria iniciado a construção de uma pequena capela; Manoel Gonçalves de Ribeiro, instalou-se em 1732 em Tramandaí e em 1741 na região das Lombas (Viamão); Francisco Xavier de Azambuja; Francisco Vicente Ferreira; Francisco Pinto Brandeira; João de Magalhães; padre José dos Reis, em Itapuã (1733); Manoel Abreu dos Santos; Sebastião Francisco (1736); Cosme da Silveira e Ávila, Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcelos (que morava no Morro Santana desde 1732), juntamente com seu cunhado Dionísio Mendes Ribeiro (1740) (COSTA, 1991, p.19 apud OLIVEIRA, 2010, p.9). Os restos da antiga moradia de Jerônimo de Ornellas, estão localizados no pé do morro do que hoje é a Vila Santa Isabel em Viamão (CARLE, 2008, p. 66).
No ano de 1741, estabeleceu-se na área atual de Viamão, na região da Estância Grande, Francisco Carvelho da Cunha, considerado por alguns como “fundador de Viamão”, por ter doado “uma légua de campo, povoada de gado cavalar e vacum, para que ali se eregisse uma capela (COSTA, 1991, p. 39 apud OLIVEIRA, 2010, p.9). A capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, primeiramente foi feita de material rústico, posteriormente reforçada e ampliada. Foi em seu entorno que se desenvolveu o núcleo urbano. A capela era considerada ótima para proteção contra os inimigos espanhóis (CARLE, 2008, p.79). Em 14 de setembro de 1746, Dom Bernardo Rodrigues, Bispo de São Paulo, elevou a capela à condição de freguesia. Em 1766, durante o período em que Viamão foi sede do governo provincial, a Igreja foi reformada para tornar-se digna da “hierarquia social, administrativa e política adquirida pela localidade” (COSTA, 1991, p. 45 apud OLIVEIRA, 2010, p. 9).
Após a ocupação por parte dos açorianos vindos na década de 1770, a freguesia de São Francisco do Porto dos Casais foi criada em 1772, sendo desmembrada de Viamão, recebendo no ano seguinte a nova denominação de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre. Devido a uma geografia privilegiada e uma melhor condição portuária em comparação com Itapuã, em 1773, a sede do governo provincial é transferida para Porto Alegre. A transferência da sede foi um duro golpe ao município, e causou grande revolta por parte da população. Houve um descontentamento geral dos moradores e um atrito grande entre Câmara e Governador. Devido a este fato, Viamão viveu sua decadência agrícola e em 1809, perdeu sua autonomia, passando a ser distrito de Porto Alegre. (OLIVEIRA, 2010, p.9).
É muito importante, na recuperação desse histórico da formação da cidade de Viamão, apontar para a importância do elemento negro no processo. A região recebeu grande influência da população negra. E a própria história da ocupação do RS, está totalmente ligada aos processos de expatriação das nações africanas (CARLE, 2008, p. 76). Poucas décadas após o início do povoamento de Viamão, a então freguesia já apresentava 42% da população composta por cativos de origem africana, os cativos indígenas somavam 3%, o total de cativos era portanto de 45%, pouco menos da metade da população, percentual muito elevado se comparado com regiões como as zonas mineradoras da época, ou as zonas de plantation, na região de Buenos Aires, por exemplo, a população cativa era de apenas 15%,4, dentro do contexto português, Sorocaba contava com 15,6. Comparando com zonas pecuaristas como o Piauí colonial (55% de escravos), Viamão não apresenta tanta distinção (KÜN, 2008, p. 88-89).

O Século XIX
Já no século XIX, em 1836, foram construídos o farol e uma capela em Itapuã, reflexo da importância que esta localidade tinha para a navegação (OLIVEIRA, 2010, p.11).
Fonte: LIVRO Raízes de Viamão, 2008, p.108
Fonte: LIVRO Raízes de Viamão, 2008, p.108
Os caminhos e o Tropeirismo
Mas nesse período Viamão, já havia perdido grande parte de seu protagonismo, para a nova capital, Porto Alegre, inclusive o protagonismo na questão portuária.
Outro fator da história de Viamão que entra no século XIX em baixa, é o tropeirismo pelos Campos de Viamão. Já desde as iniciativas de D. João VI, a partir de sua vinda ao Brasil em 1808, era interesse de Coroa Portuguesa, abandonar a onerosa rota da estrada conhecida por Serra Velha e mudar o caminho oficial de subida dos muares e tropas para o centro do Brasil. Foi adotada então uma rota mais simplificada, principalmente para as tropas vindas da Banda Oriental e lado oeste do RS, o caminho dos Campos Novos, em Santa Catarina, passando por São Borja (BARROSO, 2008, p. 171).
A Viamão do século XIX já não tinha a importância estratégica que tinha em períodos anteriores, porém grandes fatos ocorreram em seu território, e para o século XIX, temos como acontecimento mais marcante na história do Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha, na qual Viamão foi palco e guarda registros materiais dos acontecimentos.
Durante a Revolução Farroupilha, ocorreram batalhas em Viamão, na região ocorreram vários embates entre imperiais e farroupilhas, diversas operações militares foram realizadas e Viamão chegou a sediar o comando militar de Bento Gonçalves (OLIVEIRA, 2010, p. 11).
Em 1836 os rebeldes farrapos garantem o controle sobre o forte da Ilha do Junco, instalam uma fortaleza e baterias de artilharia sobre o morro, de modo que a passagem tranquila das embarcações imperiais já fica ameaçada e o abastecimento de locais estratégicos do lago monarquista perde as garantias. A partir desse fato o morro ficou conhecido como Morro da Fortaleza ou Fortaleza de Itapuã (COSTA,1991, p. 130 apud OLIVEIRA, 2010, p. 11).
Em 1838, Bento Gonçalves e Domingos José de Almeida assinaram decreto pelo qual Viamão passava a se chamar Vila Setembrina, na condição de município emancipado. Como exemplos de vestígios desse período de guerra, podemos mencionar o monumento Cruz das Almas, as margens da RS-040, no local existe um monumento aos mortos em batalha. Outro ponto de referência é o Largo das Trincheiras de Tarumã, onde teria acontecido o ataque liderado por Nepomuceno da Silva ás tropas rebeldes em 23 de novembro de 1836, batalha na qual foi morto o jornalista italiano Luigi Rossetti (OLIVEIRA, 2010, p.11).
Em diversos locais, descritos em documentos escritos ou sinalizados por monumentos ou marcos é possível que se encontre valas comuns onde foram enterrados os mortos e seus pertences, o que abre oportunidade para pesquisas arqueológicas a serem desenvolvidas em território viamonense.
Por Vinicius Marques
vinnimarx@hotmail.com
Vinícius Marques - O autor
Licenciado em História pela Universidade Luterana do Brasil - Ulbra, estudante de Direito, pesquisador colaborador no Núcleo de Pesquisa Histórica Professor Mário Curtis Giordani (Viamão), ele trabalha no Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário Federal, onde é responsável pela biblioteca, memorial e arquivo central da instituição.
Também é vocalista da banda independente Boca Braba Hardcore que vem buscando espaço no cenário do hardcore gaúcho. Viamonense nato, tem o skate como estilo de vida há mais de 15 anos.